Histórico do Câncer no Brasil

Projeto conta a história do câncer no Brasil e dá visibilidade a um assunto que, se ainda incomoda, precisa sensibilizar uma parcela maior da população para a importância da prevenção

Uma equipe de pesquisadores coordenada por Luiz Antônio Teixeira, chefe do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ elaborou um projeto de pesquisa, intitulado "O controle do câncer no Brasil na segunda metade do século XX" como mais uma iniciativa importante para dar visibilidade a um assunto, às vezes incômodo, mas de suma importância no âmbito da saúde. Além dos dados históricos, o historiador e sua equipe reuniram um grande acervo de imagens de época, como cartazes e fôlderes relativos às campanhas realizadas no País naquele período. Todo este material está disponível para consulta online e pode ser acessado pelo endereço www.historiadocancer.coc.fiocruz.br.
A ideia do estudo surgiu a partir da publicação do livro "De doença desconhecida a problema de saúde pública: o Inca e o controle do câncer no Brasil", escrito por Teixeira por ocasião dos 70 anos de fundação da Fiocruz. “O título do livro é uma referência ao desconhecimento das pessoas acerca da doença até a metade do século XX”, explica Teixeira. “Muitos se recusavam a pronunciar a palavra câncer, que também acreditavam tratar-se de uma doença de ricos”. Ao rever a trajetória do Inca enquanto produzia o texto para o livro, o pesquisador resolveu levar os fatos mais interessantes para estudos, pesquisas e análises ao conhecimento de outros profissionais. 
Segundo o pesquisador, a primeira campanha contra o câncer no Brasil foi desenvolvida no fim da primeira 
metade do século XX pelo médico Mário Kroeff, que havia criado, em 1937, a primeira enfermaria especializada em câncer do Rio de Janeiro e que, posteriormente, tornaria-se o Inca. “Entre 1948 e a década de 1950, Kroeff  se dedicou intensamente à tarefa de divulgar e informar sobre a doença. Promovia programas de rádio, ministrava palestras, além de organizar exposições com fotos, desenhos, caricaturas e outras ilustrações sobre o tema no Centro do Rio”, conta Teixeira, acrescentando que há informações seguras de que o médico chegou a produzir um filme sobre o assunto, embora o pesquisador ainda não tenha conseguido encontrar a película. O material reunido por Kroeff, entre fotos suas e de pacientes e a vasta documentação que acumulou sobre a doença, estão sendo reunidos pelo historiador, que conta com o apoio de sua família para levar adiante o projeto de uma futura exposição desse material em um espaço aberto à visitação pública.
A partir da segunda metade do século passado, a propagação das campanhas esteve muito atrelada a acontecimentos políticos. Um exemplo citado por Teixeira aconteceu em 1971. Na ocasião, Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, havia feito um pronunciamento declarando “guerra ao câncer”. Dois anos mais tarde, o presidente Emílio Garrastazu Médici retomaria o mesmo discurso, aparecendo, em rede nacional, junto com o ministro da Saúde, para anunciar maiores investimentos para o controle da doença no País. “Podemos perceber que havia, naquela época, uma crescente demanda por ações contra o câncer no País”, comenta o pesquisador. Em 1975, no entanto, de acordo com Teixeira, o Brasil enfrentou uma grave crise econômica gerada, em grande parte, pela crise internacional do petróleo, o que fez diminuir consideravelmente as ações na área da Saúde. 
O historiador explica que as campanhas, voltadas principalmente para a prevenção do câncer do colo uterino, do câncer de pulmão e contra o tabagismo, começaram a ser retomadas na década de 1980. No entanto, somente com o estabelecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), no fim daquela década, essas ações iriam se intensificar. Um bom exemplo disso foi o lançamento da campanha de controle do câncer de colo do útero, denominada de “Viva Mulher”. Teixeira esclarece que, em 1995, durante a IV Conferência Internacional da Mulher, em Beijing, a delegação brasileira era chefiada pela então primeira-dama, Ruth Cardoso, que encampou as demandas dos movimentos das mulheres, comprometendo-se a cuidar da questão do câncer de colo no País.  A partir daí, as campanhas contra a doença foram, aos poucos, transformando-se em programas mais amplos e permanentes.
Os estudos de Teixeira e sua equipe convergiram, em 2011, para uma parceria entre o Departamento de 
Pesquisas da Casa de Oswaldo Cruz e o Inca, dando origem ao projeto "História do Câncer – atores, cenários e políticas públicas". Coordenado em conjunto com o pesquisador Marco Porto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), esse novo projeto, além de produzir conhecimento histórico sobre a trajetória do controle do câncer no Brasil, visa contribuir para a valorização e preservação do patrimônio cultural produzido pelas instituições relacionadas ao controle da doença.
Em meados de 2011, Teixeira e sua equipe, ao lado de Marco Porto, levaram a público o primeiro produto 
de suas novas pesquisas. A exposição "Imagens das campanhas educativas de prevenção do câncer do colo do útero no Brasil" apresentou a trajetória das ações para a prevenção da doença no País a partir dos cartazes elaborados para a divulgação das campanhas. “Os cartazes mostram que a proposta de tratamento centrado no medo e no combate aos tumores em estágios avançados deu lugar a uma nova concepção de educação em saúde com o passar dos anos, voltada para a descoberta precoce, a prevenção e a promoção da saúde da mulher brasileira”, aponta o pesquisador. Inicialmente apresentada no 14º Congresso Mundial de Patologia Cervical e Colposcopia, realizado no Rio, a exposição ganhou novos painéis, que buscam conscientizar as mulheres com relação à prevenção da doença, e vem sendo remontada em diversas instituições e eventos. Em outra iniciativa, o pesquisador também esteve à frente de mais um estudo, "Controle do Câncer no Brasil: passado e presente", outra parceria entre a COC e o Inca. O trabalho, reunido em um livro, pretende levar ao público informações sobre a história do controle do câncer no País e conhecimento sobre a situação atual da doença, as políticas para o seu controle, as noções sobre a sua prevenção e os princípios gerais do tratamento.
Fonte: Revista Rio Pesquisa da Faperj

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