Colombo, O Pai Involuntário da Globalização

Ao chegar às Américas, explorador trouxe epidemias para o continente e voltou com espécies que alavancaram o comércio global e o desenvolvimento do Velho Mundo

O escritor e jornalista americano Charles C. Mann, em seu livro intitulado "1493" (lançado no Brasil em outubro de 2012 pela editora Verus), elege Cristovão Colombo como o maior responsável pelo intercâmbio de espécies entre a América e a Eurásia. Segundo ele, a chegada das caravelas comandadas pelo navegador italiano foi o marco zero da globalização, fenômeno eminentemente biológico e não econômico.

Normalmente considera-se que a globalização entrou em pauta na reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos EUA, em 1999. Mas Charles Mann defende  que este fenômeno, alem de mais antigo, é também biológico.
"A partir de uma perspectiva científica. Cristovão Colombo foi um agente de mudanças biológicas", esclarece o autor. "Ao cruzar o Oceano Atlântico, ele recriou a Pangea. Ele uniu novamente os continentes que se separaram. O resultado foi uma convulsão ecológica global. Este foi o maior evento da História desde a morte dos dinossauros - e, também, foi o início da globalização. Este, então, é um fenômeno biológico, e não econômico."
"A primeira onda de criaturas que inundou as Américas foi a de micro-organismos e vírus: varíola, sarampo, tuberculose, gripe, peste, tifo, febre amarela... Nos primeiros 150 anos após Colombo, este ataque devastador de doenças européias matou entre dois terços e 90% dos nativos americanos. Foi a maior catástrofe demográfica da História humana. E ainda não sabemos explicar como um pequeno grupo de europeus mal equipados conseguiu estabelecer-se em paisagens que eram totalmente desconhecidas para eles."
Mann declara ainda que a Europa se beneficiou com esse intercâmbio de espécies: "Por séculos a fome  foi um problema constante na Europa, trazendo violência e instabilidade política. A batata, que é originária dos Andes, mudou completamente esse panorama, porque ela é mais produtiva do que cereais como o trigo e o arroz. Sua chegada fez com que a Europa finalmente fosse capaz de se prover. A população aumentou bastante, permitindo que os governos, agora mais estáveis, exportassem colonos. A batata era o combustível que alimentava os impérios europeus." Charles Mann chega a afirmar que a Europa exportou doenças e, em troca, recebeu a batata e o milho.
Porém, de acordo com o autor, "a primeira commodity a virar mania global foi o tabaco, uma planta amazõnica que começou a ser cultivada pelos europeus no Brasil na década de 1540. Os marinheiros portugueses rapidamente levaram o tabaco para o mundo inteiro. Era divertido usá-lo, dava a você uma boa imagem e era viciante. Entre 1580 e 1610 há registros da planta sendo adotada e cultivada em todo o planeta, da Inglaterra ao Japão."
Mann conclui dizendo que " Muito da História dos europeus no Brasil - e, de fato, do movimento das pessoas pelo mundo iniciado por Colombo - correspondeu à história de pessoas movendo-se entre ecossistemas que elas não entendiam, com consequências devastadoras para elas mesmas e para o ambiente." Com o livre comércio e a circulação das pessoas, é cada vez mais fácil a proliferação de pragas, vírus e a possibilidade de pandemias.
Trechos adaptados da entrevista de Charles Mann à revista O Globo Amanhã em 27/11/2012


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