Tecnologia Indígena

Entre os povos indígenas e outras comunidades que vivem em áreas rurais no Brasil, a distância entre a matéria-prima e os produtos é pequena. Os conhecimentos tecnológicos necessários à fabricação de objetos são dominados por homens ou mulheres, de acordo com a sua idade e função social na comunidade

As pessoas normalmente associam o termo tecnologia às inovações decorrentes do progresso da ciência. Uma matéria que saiu na Revista de História da Biblioteca Nacional, em abril de 2013, veio desfazer esta noção de uma maneira bem peculiar. Assinada por Simone Athayde, pesquisadora do  Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, a matéria aborda a questão do desenvolvimento tecnológico dos povos indígenas a partir da proximidade e do conhecimento das matérias-primas utilizadas na confecção de seus produtos. De acordo com a pesquisadora, as produções materiais e tecnológicas dos povos indígenas são fruto de uma complexa teia de saberes e significados. Vejamos alguns trechos: 
"As invenções tecnológicas da era atual levaram o homem à lua e diminuíram as distâncias entre as sociedades humanas através dos meios de transporte e da internet. Elas nos fizeram mais resistentes às doenças, mas deixaram o planeta vulnerável a mudanças climáticas devido ao uso incontrolado de recursos naturais e ao crescimento populacional. Dependemos da natureza para obtenção da água, do petróleo e de outros recursos usados na fabricação de produtos. No entanto, a especialização do homem, principalmente após a revolução industrial, distanciou-o da origem dos materiais usados nos objetos. Nas sociedades industriais, chegou-se a um nível de especialização no qual cada ser humano, na sua profissão, é responsável por uma etapa na fabricação de um produto, muitas vezes desconhecendo a origem das matérias-primas utilizadas e as diferentes fases necessárias para esta transformação.
Entre os povos indígenas e outras comunidades que vivem em áreas rurais no Brasil, a distância entre a matéria-prima e os produtos é pequena. Os conhecimentos tecnológicos necessários à fabricação de objetos são dominados por homens ou mulheres, de acordo com a sua idade e função social na comunidade. Assim, uma jovem indígena aprende com a mãe, a avó e as tias a plantar e a colher o algodão, cuidar das sementes, fiar e tecer redes para sua família. Ela é ao mesmo tempo cientista, engenheira e artista.
A tecnologia indígena compreende conhecimentos aplicados na transformação de recursos naturais em objetos ou produtos utilizados com inúmeras finalidades: da alimentação e uso doméstico até o transporte (por exemplo, fabricação de canoas), moradia, uso ritual (festivais e pajelanças) e, crescentemente, a comercialização. O conjunto de objetos produzidos pelos povos indígenas é chamado pela antropologia de “cultura material”. Os objetos podem ser classificados de acordo com as matérias-primas, as técnicas usadas em sua fabricação ou segundo o seu uso em diversas categorias: adornos ou enfeites, arte plumária, brinquedos infantis, caça, pesca, transporte, cerâmica, cestaria, instrumentos musicais, tecelagem, habitação e uso ritual.
O conhecimento vivencial dos povos indígenas distingue-se da ciência ocidental não indígena de várias maneiras. Para os indígenas, não existe separação entre religião e ciência. As dimensões espiritual, social, econômica e ecológica estão integradas na sua visão de mundo, e fazem parte do dia a dia de suas relações sociais e com a natureza. Não há separação entre a produção de um objeto de uso diário e a produção artística. Um cocar de penas de arara confeccionado por um homem kayapóé ao mesmo tempo um adorno, um objeto ritual, uma obra de arte e um símbolo de identidade étnica e política.
Os povos indígenas brasileiros usam uma grande variedade de materiais encontrados na natureza para a produção de suas obras e objetos de uso rotineiro e ritual. Esses recursos naturais podem ser de origem mineral (pedras, barro para fabricação de cerâmica), vegetal (fibras, folhas, raízes, sementes, troncos) e animal (penas, pelos, unhas, dentes, escamas, ossos). Estão nos rios, nas florestas, nos campos, nas roças, nas capoeiras (roças antigas) e em outros ecossistemas.
Um mesmo objeto pode ter várias finalidades. Os homens kaiabi fabricam um tipo de cesto adornado com desenhos gráficos que é usado pelas mulheres para guardar algodão. Ele é tecido com a fibra do arumã, planta que possui seu “dono” ou espírito. Para colher o arumã, os homens utilizam o facão e cortam a planta acima do primeiro nó, para que rebrote. Em seguida, seguem-se diversas etapas de preparação da fibra. Os homens trançam as peneiras de acordo com a técnica de trançado marchetado, com desenhos gráficos em relevo, procedendo então à pintura do cesto com a resina da casca de um tipo de jequitibá. O mesmo cesto pode também ser usado pelo pajé para rezar um doente (uso ritual) e para a venda. Um objeto que parece “simples” aos olhos de um observador externo possui um conjunto de valores, técnicas e conhecimentos associados, como se em uma peneira fosse possível trançar várias dimensões ou “teias de significados” materializados pela tecnologia.
O conhecimento tecnológico é peculiar a cada povo indígena, e está de acordo com suas tradições culturais, inter-relações com a natureza, língua e história. No passado, muitos deles eram adquiridos na guerra e no contato com outros povos indígenas, e transmitidos de geração a geração por observação direta ou por via oral, através de mitos e histórias. O conhecimento de como produzir e dominar o fogo, aprendido com os ancestrais e “roubado da onça e do urubu-rei”, é aplicado anualmente na agricultura indígena, envolvendo o processo de escolha do local, abertura da roça, queima utilizando certos tipos de madeiras (como varetas de urucum), seguidos de plantio, colheita e preparo de alimentos."

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