"Efeito CSI"

'Efeito CSI' impulsiona estudo de insetos para desvendar crimes no Brasil. Núcleos de pesquisa crescem no país, atraindo jovens inspirados na série americana sobre entomologia forense

A entomologia forense, a ciência que estuda os insetos e outros artrópodes para solucionar crimes, vem ganhando destaque no país e colocando o Brasil na dianteira acadêmica da biologia criminal. A procura cresceu junto com o despertar do interesse das polícias investigativas pela entomologia ao se depararem com casos complexos, nos quais a precisão pode inocentar ou condenar um acusado.

O professor José Roberto Pujol, coordenador do Núcleo de Entomologia Forense do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) chama isto de "efeito CSI", uma referência ao seriado da televisão americana CSI (Investigação da Cena do Crime, na tradução do inglês). Segundo Pujol. "Temos uma demanda reprimida no país em pesquisa de ponta, mas mesmo assim o Brasil é referência na América Latina. O efeito CSI é grande na garotada que quer entrar nessa área. Há uma procura bombástica". "A UnB abriu esse espaço por causa da demanda da polícia, que trouxe esse problema (criar conhecimento) para a academia", afirma o professor.
Não à toa, o núcleo brasiliense formou 76 legistas e peritos criminais com suporte financeiro do Ministério da Justiça em 2003 e 2004. Alguns desses alunos voltaram para seus estados e instalaram núcleos próprios de pesquisa. Atualmente, além dos já tradicionais laboratórios de Campinas (SP), Rio de Janeiro e Brasília, há entomologistas em Belém, Curitiba, Macapá, Manaus, Salvador e Recife.
Foi graças à evolução do segmento científico, por exemplo, que a Justiça reuniu as provas necessárias para a condenação do pai e da madrasta da menina Isabella Nardoni , morta em 2008. A precisão do momento de morte da menina de 5 anos foi feito com a ajuda da equipe de Pujol.
Isso porque estudos de entomologia forense podem identificar o estágio de desenvolvimento de larvas de moscas e, com isso, a hora exata que o inseto nasceu. "O olfato das moscas faz com que elas sintam o cheiro de um corpo a 10 quilômetros de distância, depois de 10 minutos da morte", diz a bióloga Karine Brenda Barros-Cordeiro, 29 anos que está finalizando mestrado na área.
A descoberta dos restos mortais dos 154 passageiros do voo 1907 da Gol , em setembro de 2006, foi possível também por conta do olfato das varejeiras. "Depois do acidente da Gol já trabalhamos em outros acidentes de massa e na identificação de cemitérios clandestinos", conta o professor.
O biólogo da UnB comemora também o número expressivo de casos que o núcleo de estudos brasiliense contribuiu em dez anos. "O pesquisador mais antigo em atividade mora no Hawai (EUA) e trabalhou em 150 casos em toda a vida. Em 10 anos, 50 casos passaram pelo nosso laboratório", afirma.
Apesar do crescimento do interesse da “geração CSI”, a entomologia enfrenta dificuldade em segurar talentos e atrair especialistas experientes. O motivo é a falta de recursos para a investigação científica.
As dificuldades são visíveis no núcleo de Brasília. A UnB adquiriu há dois meses três estufas climatizadoras com o repasse de R$ 126 mil pelo Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), mas não conseguiu ligá-las por falhas estruturais. "Não estou fazendo uma pesquisa de ponta por não conseguir ligar esse equipamento", critica.
A estufa capaz de reproduzir diversos ambientes nos quais é possível identificar diferentes estágios de desenvolvimento de insetos e, com isso, precisar melhor crimes, demanda cerca de R$ 9 mil para construção da infraestrutura. "Esses equipamentos foram fabricados especificamente com um alto nível eletrônico e está desligado por falta de tomada, tubulação e a instalação de ar-condicionado para refrigerar o ambiente", diz.
A falta de infraestrutura prejudica novas investidas científicas. "A gente não consegue fazer projeto de pesquisa e ao mesmo tempo ajudar num caso, porque só temos uma estufa funcionando", diz Karine.
Ainda assim, o núcleo de entomologia brasiliense dribla adversidade ganhando projeção internacional. Os brasileiros colaboraram com a perícia da Colômbia para identificar desaparecidos pelas Farc e desenvolveram a segunda pesquisa já produzida no mundo utilizando insetos para identificar a origem de maconha traficada para o Brasil.
"A partir da mosca contida na droga é possível identificar de onde ela vem. O único estudo desse tipo era do começo da década de 1980 e foi feito no Canadá. Um aluno conseguiu autorização da Justiça para fazer uma pesquisa igual aqui e o resultado foi ótimo", conta Pujol.
O brasileiro prepara agora o terreno no qual vai montar o primeiro campo experimental para trabalhar na descoberta de cemitérios clandestinos. A experiência deve ajudar na busca pelos guerrilheiros desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.
Saiba mais no Biorritmo sobre Entomologia Forense
Fonte: Portal Ig (adaptado)

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