Conceitos de Água Virtual e Pegada Hídrica

O conceito de “água virtual” foi criado para explicar a quantidade de água empregada para produzir um produto em um determinado local, porém destinado para outra localidade,. O Brasil é hoje um dos maiores exportadores globais de "água virtual".

Em tudo que compramos, desde alimentos e peças de vestuário até aparelhos eletrônicos, existe um consumo de água que muitas vezes está “escondido” e pode não aparecer em sua embalagem, aparência ou conteúdo. Mas essa água virtual, por vezes empregada em um volume bem maior que o esperado, também deve ser considerada quando da escolha de consumir determinados produtos.
Seu uso ocorre durante as etapas produtivas e pode ser desde a água da chuva necessária para um vegetal crescer até a água gasta nos processos de manuseio e industrialização do item. A porção de água virtual, mesmo “invisível”, muitas vezes é bem maior do que a parcela de água presente no produto final. Segundo dados da organização internacional Waterfootprint, somente para a produção de um único litro de leite, por exemplo, são utilizados cerca de mil litros de água.
O uso de água virtual somado a outros fatores, como a quantidade de água diretamente utilizada em um produto, o tipo de fonte, o momento de sua utilização e sua localização, podem nos fornecer a pegada hídrica de um produto, ou seja, seu impacto hídrico analisado de forma mais ampla. A disponibilidade ou escassez de água em um ecossistema também influencia o cálculo da pegada hídrica de um bem de consumo produzido em determinado local, podendo variar de uma região para outra.
Alguns produtos de uso comum possuem uma pegada hídrica relativamente grande, se comparados ao volume e composição do produto final. É o caso de itens como o açúcar de cana refinado, o arroz e a carne bovina, que para cada quilo produzido, segundo a Waterfootprint, consomem respectivamente 1.800, 2.500 e 15.400 litros de água. Informações da WWF indicam que itens de vestuário comprados em larga escala como pares de sapatos e camisetas de algodão consomem para sua produção, em média, 8.000 e 2.900 litros de água cada um.
Esses exemplos nos mostram como grande parte do impacto ambiental de um produto já vem embutido nele antes mesmo de chegar até nós, sem que saibamos sobre sua dimensão ou como foi ocasionado. Pensar na água virtual que consumimos é pensar na história dos produtos antes de chegarem até as prateleiras. Esse aspecto deve ser um dos levados em conta por consumidores e fabricantes, em prol de um modelo de consumo mais sustentável e consciente.
O Brasil é hoje um dos maiores exportadores globais de “água virtual”. “A região do Alto Xingu é globalmente conectada por meio de exportações agrícolas e, portanto, é um ponto chave na rede mundial de comércio de água virtual”, afirma Vicky Ballester, pesquisadora do projeto e membro do Programa Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais.
Ao longo das últimas quatro décadas, o Alto Xingu sofreu um processo de desmatamento em larga escala, impulsionado principalmente pela intensificação da criação de gado e lavouras. Nos últimos vinte anos, a crescente demanda mundial por carne tem alimentado a expansão das áreas de cultivo na região, especialmente a soja para a alimentação animal. “As exportações de soja aumentaram e deslocaram-se da Europa, que era o principal mercado de destino em 2000, para a China, que hoje se tornou o maior importador de soja de Mato Grosso”.
As tendências de crescimento populacional na Ásia indicam que esse comércio de água virtual se tornará ainda mais estratégico para a segurança hídrica dos países da região, principalmente a China. Os pesquisadores da USP ligados ao projeto do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) propõem avaliar o consumo de água da cultura de soja e sua eficiência, já que os recursos hídricos subterrâneos no Alto Xingu estão entre os menos explorados do planeta, o que sugere que a futura intensificação da agricultura pode recorrer a essa região para explorar ainda mais seus recursos para irrigação.

Comentários

  1. Olá, JA
    Gostei muito do artigo. Entendi melhor o que é "água virtual", quase ninguém fala a respeito dessa nova tendência em relação ao consumo de produtos em âmbito mundial. Eu já havia lido um artigo no ano passado sobre o assunto e levei para meus alunos e eles não se interessaram. O que eu pude entender é que as nossas reservas de água estão sujeitas a grande explorações para a exportação de produtos variados. Como o nosso país não se preocupa com os brasileiros vejo um futuro meio obscuro no que tange ao consumo interno. Quem sabe se teremos apenas uma porção de grão, uma porção de água para beber ao dia e, sem direitos à carne, banhos e produtos eletrônicos? É para se pensar!
    Um abraço!
    PS: O encontro do grupo este ano será na última sexta das férias.

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