Ciência é Coisa de Maluco?

O cientista é visto no imaginário popular como uma pessoa louca, desleixada, excêntrica e genial. Segundo educadora, essa imagem frequentemente explorada pela mídia e muito presente em nossa sociedade, deturpa o real significado do trabalho dos pesquisadores (crédito)

De maneira geral e muito ampla, o cientista é retratado como louco, desleixado, excêntrico e genial. A ciência, por extrapolação, também é apresentada como exótica, difícil, coisa para poucos – aqueles poucos, loucos, desleixados, excêntricos e geniais que se dispõem a trabalhar com temas por demais complexos. Em sua matéria publicada em setembro de 2013 na Ciência Hoje On-Line ( O cientista no imaginário popular), a bióloga e educadora Vera Rita da Costa reflete sobre a necessidade de desmitificar a figura do pesquisador, visto frequentemente como genial, excêntrico ou tresloucado. Segundo ela, exploradas pela mídia e muito presentes em nossa sociedade, essas imagens e concepções inadequadas do cientista e da própria ciência têm se transformado gradativamente em mitos. E, como todo mito, passaram a induzir o comportamento e a inibir o questionamento e o livre pensar, inclusive dos professores de ciências.
De acordo com a educadora, "são muitas as possíveis explicações para a origem do mito do cientista genial, excêntrico, louco e um tanto quanto desleixado. Há justificativas de caráter histórico, como o fato de a ciência institucionalizada ter sua origem nas catacumbas, na fuga das perseguições da Inquisição, e de os primeiros cientistas terem sua figura original associada aos alquimistas.O fato é que o mito do cientista genial e excêntrico existe e ganhou (e ainda ganha) muita força com a popularização de biografias que destacam aspectos inusitados da vida desses personagens, assim como de suas imagens. Fotos de Albert Einstein (1879-1955) com sua cabeleira desgrenhada, a língua de fora ou andando de bicicleta descabelado ajudaram, sem dúvida, a reforçar o mito, contribuindo para a consolidação do imaginário popular sobre o cientista".
Porém, aquela imagem estereotipada de um homenzinho de cabelo arrepiado e óculos fundo-de-garrafa, vestido com um jaleco branco que todo mundo tem na cabeça quando se fala em cientista maluco tem alguma razão de ser. A vida de Johann Konrad Dippel (1673-1734), um alquimista alemão que entre os séculos 17 e 18 buscou o elixir da imortalidade, pode ter inspirado a escritora Mary Shelley (1797-1851) a criar um dos mais famosos cientistas malucos de todos os tempos: Dr. Frankenstein. Há relatos de que Dippel morou no castelo da família von Frankenstein, em Bergstrasse (Alemanha), e que entre seus estranhos experimentos estava justamente roubar corpos do cemitério e tentar revivê-los.
As maluquices de Dippel por mais bem intencionadas que pudessem ser ajudaram a criar o estereótipo do cientista louco que predomina em nossa imaginação. Mas não foi só o original Dr. Frankenstein o único cientista maluco a existir na vida real. Na história da ciência moderna, vários outros gênios desenvolveram ideias e experimentações muito loucas, algumas utópicas, outras que nos levaram a conquistas inimagináveis e várias delas assustadoras. O site How Stuff Works (Como as Coisas Funcionam?, em tradução livre) listou os nomes e as façanhas dos 10 cientistas mais malucos da história. Analisando um pouco da vida e da obra destes "doidões da ciência", podemos perceber lampejos de sanidade e o pontapé inicial para uma série de descobertas consideradas memoráveis nos dias de hoje.

Vera Rita da Costa em seu artigo destaca o seguinte: " É preciso se convencer de que, de certa forma, todos podemos fazer ciência. Não necessariamente o faremos da mesma forma, com o mesmo grau de dedicação e especialização. Mas o estudo e a investigação de um determinado tema, seguindo uma dada metodologia – que requer questionamento, formulação de hipóteses, observação, experimentação e interpretação de resultados –, podem ser feitos a princípio por qualquer um de nós. Para ensinar ciências, é preciso reconhecer que essa forma de pensamento ou de construção de conhecimento não é restrita a poucos, nem requer genialidade, excentricidade ou habilidades não convencionais.
Um professor de ciências dará passos muito importantes em direção a se sentir capaz de ensinar e de auxiliar seus alunos a ampliar seu conhecimento se aceitar essa asserção – a visão da ciência como o exercício ou a prática de um conjunto poderoso de habilidades humanas, compartilhadas por todos. Mais significativa ainda será sua contribuição se conseguir compartilhar essa perspectiva com seus alunos; se conseguir desmitificar as ideias preconcebidas que se tem do cientista e da ciência.
É muito raro isso ser considerado um conteúdo importante em sala de aula. Mas é uma abordagem fundamental!", diz a educadora.

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