O Ebola e a Mídia

O medo de uma disseminação global do vírus Ebola fomentado pelo sensacionalismo da mídia internacional está contribuindo para desviar a atenção dos reais problemas de saúde enfrentados pelas populações africanas ( foto: Oficial da Coreia do Sul verifica através de uma câmera térmica a temperatura corporal dos passageiros que chegaram do exterior para prevenir uma possível infecção do vírus do ebola)

A preocupação que as pessoas estão tendo ultimamente em relação à uma possível epidemia mundial de Ebola tem um único responsável: a mídia. Até algumas semanas atrás, as notícias do surto de infecção pelo vírus Ebola estava restrito aos países do oeste da África, um continente onde as doenças são historicamente negligenciadas há seculos. Mas com a chegada aos EUA do médico Kant Brantly e da missionária Nancy Writebol, ambos infectados na Libéria, o Ebola tornou-se algo próximo para os americanos e para o mundo. Pior: tornou-se real.
“A quantidade de cobertura da mídia que dois americanos infectados pelo Ebola receberam foi extraordinária. Talvez seja a maior atenção recebida por um estado de saúde na mídia moderna. Enquanto isso, na África, o surto atual de Ebola se espalha apesar dos esforços locais para controlar a doença, ressaltando nossa confusão entre ameaças de saúde reais e imaginadas”, Assim começa um artigo sobre o Ebola publicado pela revista Forbes, de autoria de Steve Brozak, presidente de um banco de investimento e empresa de pesquisa especializada em biotecnologia e na indústria farmacêutica. Em seu artigo, Brozak fala sobre o tamanho do surto: em apenas oito dias, entre 24/7 e 1/8, foram identificados 1.285 novos casos na África e 118 pessoas morreram vítimas da doença. "Para além da ameaça real e assustadora do Ebola, no entanto, a primeira frase de seu texto enfatiza um fenômeno impulsionado pela mídia e alimentado pelas redes sociais", diz um artigo publicado na página do Observatório da Imprensa em 17 de agosto. 
Segundo o Observatório, "os principais canais de notícias americanos – CNN, Fox News e MSNBC – seguiram de perto, com direito a câmeras em helicópteros, a ambulância que carregava o médico Kant Brantly até o hospital em Atlanta. Brantly foi infectado com o Ebola na Libéria e, apesar do tom dramático e exagerado da cobertura de sua chegada aos EUA, entrou pela porta dos fundos do hospital andando, com a ajuda de apenas uma pessoa."
A blogueira e escritora Leslie Savan, também citada no texto do Observatório, publicou um artigo na revista The Nation, criticando o tratamento sensacionalista que a mídia tem dado ao caso dos dois americanos infectados. Segundo ela, a imprensa americana está montando um circo semelhante ao que armou há 20 anos durante o julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson, acusado de assassinar a ex-mulher.
“Em vez de dissipar mitos não-científicos e políticos, o instinto em muitos veículos de mídia tem sido promovê-los”, escreveu Leslie Savan. A mídia deveria, segundo ela, mostrar que o Ebola é “uma doença horrível com uma taxa de morte terrivelmente alta porque até agora apareceu apenas na África, onde água limpa, quarentenas à força e suprimentos médicos descartáveis são raros”, e não promover debates com quem acredita que se trata de um castigo divino ou qualquer baboseira do tipo.
A professora e escritora Lola Okolosie publicou no site do jornal britânico The Guardian um artigo intitulado "Ebola has infected public discourse with a new xenophobia" (traduzido livremente como "Ebola infectou o discurso publico com uma nova xenofobia") no qual relata o medo da contaminação que tomou conta da população mundial. Ao voltar à Inglaterra de uma viagem de férias à Nigéria, grávida, Lola teve uma consulta com sua parteira cancelada. “Diante da possibilidade do Ebola, minha parteira foi exageradamente cautelosa. É uma reação que eu consigo entender, então não a julgo ou critico. Já a cobertura midiática do surto não merece a mesma consideração”, escreve.
Ela explica: “Na imprensa, as comunidades que lidam com o vírus estão sendo apresentadas como tendo uma desconfiança irresponsável da medicina ocidental. A sugestão é de que elas são, assim como o continente em que vivem, seu pior inimigo”. Lola defende que a mídia britânica faça mais do que “repetir velhas narrativas sobre a ‘ignorância’ africana” e diz que é compreensível a reação das comunidades africanas atingidas pelo Ebola às equipes médicas estrangeiras. “O medo e a desconfiança de instituições ocidentais são explicáveis no contexto de uma história de exploração por multinacionais e governos coloniais”. Para Lola, descontextualizar os fatos aumenta o risco de se projetar a imagem da África como “um outro mundo”, a antítese da Europa e, por sua vez, da civilização. “No Reino Unido, comentários deixados em artigos sobre o tema costumam refletir o predominante clima anti-imigração – com a diferença que agora ele é apresentado na moldura da ciência e da saúde pública [...] Em vez de nos concentrar na realidade desesperadora das comunidades que estão vivendo com o vírus, nossa atenção se voltou para nós mesmos.”

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