Avanços da Cristalografia Biológica no Brasil

Avanço da cristalografia é destacado por pesquisadores em encontro internacional realizado no Brasil. Área é voltada ao estudo de cristais de proteínas para compreender processos biológicos, surgimento de doenças e desenvolver novos fármacos. A cristalografia ganha impulso no Brasil com a construção de nova fonte de radiação em Campinas (SP).

Um grupo de 110 pesquisadores de nove países da América Latina esteve reunido, entre os dias 22 e 24 de setembro, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), no Latin American Summit Meeting on Biological Crystallography and Complementary Methods, maior evento científico latino-americano do calendário de comemorações do Ano Internacional da Cristalografia (IYCr2-14). O objetivo do evento foi promover debates sobre a pesquisa em cristalografia biológica – área voltada ao estudo de cristais de proteínas para compreender processos biológicos, desvendar o surgimento e progressão de doenças e desenvolver novos fármacos.
O encontro foi promovido pela Unesco ( Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura ) e pela União Internacional de Cristalografia (IUCr). De acordo com Marvin Hackert, presidente da IUCr e professor do Departamento de Química da University of Texas em Austin, nos Estados Unidos, o Brasil foi escolhido como sede do encontro por ser o país que realiza o maior número de pesquisas em cristalografia na América Latina.
Estima-se que, nas últimas décadas, os cerca de 20 grupos de pesquisa no país – concentrados em universidades e instituições de pesquisa no Estado de São Paulo – tenham desvendado a estrutura de aproximadamente 400 macromoléculas.
“Grupos de pesquisa no Brasil estudam, por meio da cristalografia, por exemplo, proteínas provenientes de parasitas responsáveis por doenças tropicais, com o objetivo de desenvolver novos fármacos”, disse Richard Garratt, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP).
“Nos últimos anos, porém, as pesquisas ficaram bastante diversificadas. Há grupos estudando proteínas de vírus, plantas e bactérias, com diversas finalidades”, disse Garratt, um dos coordenadores do evento.
Entre 1990 e 2013, brasileiros publicaram cerca de 14.400 estudos relacionados à cristalografia, segundo estimou Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e professor do IFSC-USP, durante palestra no evento. “O número de publicações de trabalhos nessa área no Brasil cresce exponencialmente”, disse.
Entre as razões apontadas para o crescimento está a inauguração, em 1997, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), no CNPEM.
A instituição é a única na América Latina com uma fonte de luz síncrotron –intensa radiação eletromagnética produzida por uma carga acelerada de elétrons, defletidos por um campo magnético em um acelerador de partículas (o síncrotron).
O equipamento é utilizado por pesquisadores e por empresas, para o estudo da estrutura de materiais em nível atômico.
Com a construção da nova fonte de luz síncrotron, a Sirius, também no LNLS, a pesquisa brasileira em cristalografia poderá dar grandes saltos de produção e impacto internacional, segundo Garratt.
“Com a Sirius, teremos condições de realizar pesquisas de ponta em cristalografia e vamos atrair pesquisadores de outras partes do mundo para realizar suas medições no Brasil. Também seremos capazes de enfrentar problemas científicos mais complexos, desafiadores e de mais alta relevância”, disse.
A nova fonte, que leva o nome da estrela mais brilhante vista da Terra, deverá ter um acelerador de elétrons com energia de 3GeV (giga elétron-volts), 518,4 metros de circunferência e capacidade de comportar até 40 linhas de luz (estações de pesquisa).
Segundo Hackert, 2014 foi escolhido pela Unesco para ser o Ano Internacional da Cristalografia em comemoração ao centenário do nascimento da área e em homenagem ao trabalho pioneiro na área realizado pelo físico alemão Max von Laue (1879-1960) e pelos ingleses William Henry Bragg (1862-1942) e William Laurence Bragg (1890-1971), pai e filho.
A cristalografia também é reconhecida como uma área pródiga em prêmios Nobel. Estima-se que a pesquisa de 45 vencedores do prêmio nas últimas décadas, nas áreas de Fisiologia, Biologia, Química e Física, tenha relação com a cristalografia.
“A cristalografia envolve problemas multidisciplinares. Por isso, atrai pesquisadores de diferentes áreas, como a Química e a Física, para tentar juntos encontrar respostas para os problemas que nos apresentam”, disse a química israelense Ada Yonath que dividiu o Nobel de Química com os colegas Venkatraman Ramakrishnan e Thomas Steitz por identificar a estrutura do ribossoma e a forma como ele é interrompido por antibióticos. Yonath também estava presente no encontro em Campinas.
Fonte: Exame

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