Herança de Amores Passados

Pesquisadores australianos descobrem uma nova forma de herança não genética em moscas da família neriidae. Segundo eles, o sêmen de parceiros anteriores podem influenciar as características da atual prole das fêmeas desta família de insetos.

Pesquisadores  da Universidade de New South Wales, na Austrália descobriram um fenômeno muito interessante que ocorre em moscas da família neriidae. Segundo eles, nesse tipo de mosca, o sêmen dos parceiros anteriores podem ter influências sobre a prole da fêmea, mesmo após o "rompimento da relação". Em outras palavras: é possível que os filhotes de uma mosca fêmea possam se assemelhar a um parceiro sexual anterior, em vez de o macho atual que fertilizou seus ovos.
Esta forma de herança não-genética recebeu no passado o nome de telegonia. A ideia de que esse fenômeno era possível  foi proposta pela primeira vez por Aristóteles, e foi uma teoria de hereditariedade muito popular no século 19, mas foi desacreditada pelos cientistas com o desenvolvimento da genética.
De acordo com a pesquisadora-chefe Angela Crean, da escola de ciências biológicas, os pesquisadores partiram do princípio de que poderia haver alguma coisa dentro de sêmen capaz influenciar as características de uma prole. Alguma molécula desconhecida poderia permanecer dentro da fêmea e, de alguma forma, influenciar o desenvolvimento de seus filhos.
"Toda ejaculação traz um monte de outras coisas nela; apenas 5 por cento é o próprio espermatozóide ", disse ela à revista Popular Science . "O espermatozóide é o que fertiliza o óvulo, mas você tem todos esses açúcares e proteínas e fluido que transportam o espermatozóide. E nós sabemos que isso pode conduzir coisas como doenças sexualmente transmissíveis e muitas outras matérias como peptídeos. " Crean cita um exemplo de um peptídeo sexual conhecido que é conduzido pelo sêmen que pode influenciar o comportamento de uma mosca fêmea, fazendo-a pôr mais ovos e reduzindo seu desejo de acasalar com outros machos.
Os pesquisadores suspeitaram que algo como esse peptídeo poderia estar causando os efeitos de variação de tamanho observados na prole desses insetos. Para comprovar essa hipótese, a equipe decidiu realizar um experimento: criar um grupo de moscas grandes e pequenas do sexo masculino, alimentando-as com dietas diferentes quando eram larvas. Eles, então, acasalaram esses machos de diferentes de tamanho com fêmeas imaturas (as quais não poderiam produzir ovos).
Então, quando as fêmeas estavam maduras, os pesquisadores efetuaram novamente o acasalamento delas com um macho grande ou pequeno e estudaram a prole resultante. Foi quando eles descobriram que o tamanho da prole não foi determinado por seus pais, mas pelos companheiros anteriores das fêmeas.
Isto significa que uma molécula desconhecida presente no ejaculado dos machos poderia permanecer dentro da fêmea e, de alguma forma, influenciar o desenvolvimento de seus filhos. Crean diz que a descoberta veio revolucionar tudo o que sabe sobre como a variação é transmitida entre as gerações, que é o que impulsiona a sua pesquisa. Ela observa que é possível que tal fenômeno possa ser observado em outras espécies também. E, quanto a tal efeito ocorrer em seres humanos, Crean diz que é quase impossível de provar, porque você não pode fazer esses tipos de experimentos de manipulação sobre as pessoas. Mas ela não está mantendo sua mente fechada: "Há uma possibilidade.", diz a pesquisadora.

Artigo científico de referência: Revisiting telegony: offspring inherit an acquired characteristic of their mother's previous mate. Angela J. Crean, Anna M. Kopps e Russell Bonduriansky
Article first published online: 30 SEP 2014 DOI: 10.1111/ele.12373

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