A Epidemia de Depressão do Século XXI


O relatório da OMS de 2000 já previa uma epidemia, em 2020, de que 15% da população deixaria de trabalhar por conta da depressão. Ela pode estar, muitas vezes, vinculada ao uso de drogas entorpecentes e ao alcoolismo. Mas o grosso não necessariamente está vinculado ao álcool ou a entorpecentes, mas sim a uma enorme falta de sentido para a própria vida, diz especialista

Se, durante o século XIX e começo do XX, a histeria era a forma mais evidente de sofrimento, no século XXI esse espaço foi tomado pela depressão. Expressa na ausência de vontade e de projetos futuros, não é exagero chamá-la de epidemia. Em 2000, um relatório da Organização Mundial da Saúde já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à doença. No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu impressionantes 705% em 16 anos. O problema atinge principalmente a juventude. 
A psicanalista e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade da UFRJ Teresa Pinheiro, carioca de 61 anos, concedeu uma entrevista por telefone à revista Carta na Escola, na qual abordou as raízes do problema da depressão na sociedade de consumo, na mudança da relação da sociedade com o tempo e sobre a importância de retomar o sentido do papel social como forma de combater a doença.
Primeiramente, ela estabeleceu uma comparação entre tristeza e depressão. Segundo a psicanalista, "a tristeza é um sentimento que você tem em razão de uma coisa muito objetiva: perder alguém, não poder realizar algum projeto que gostaria muito, se decepcionar com algo etc. A tristeza é uma coisa localizável, há um objeto que gera esse sentimento de tristeza. O que chamamos de depressão é algo mais ligado ao não desejo, não a um fato objetivo, mas a alguma coisa de um sentimento de não vontade, se a gente puder dizer assim. Não tenho vontade de nada, a vida parece não ter mais nenhum colorido, não há nada que atraia. São as depressões mais graves. As depressões não precisam ser tão graves, mas podem simplesmente estar expressas nessa ausência de projetos futuros e na ausência de vontade."
Quando perguntada por que a depressão tornou-se o modo de sofrimento mais evidente no século XXI, Teresa Pinheiro respondeu que a depressão "é uma expressão de resistência a uma sociedade de consumo, a uma sociedade voltada para as performances: o homem de sucesso, o homem que é capaz de brilhar na sua carreira, quando tudo vira um grande acontecimento. E, por outro lado, o mundo dava referências muito estáveis para as pessoas. Você até poderia ir contra essas referências, mas existiam normas do que eram um bom pai, um bom filho, um bom trabalhador, o que era uma pessoa de bem, que hoje não se usa mais. Existiam referenciais morais, e da instituição familiar, sem dúvida, que pareciam muito estáveis e eram dados de fora para dentro. Isso é o que me interessa. O mundo hoje foi demolindo essas categorias e as referências passaram a ser internas: cada um decide o que é bom e o que é mau. Isso não está mais fora do sujeito, está dentro dele. E há uma dimensão de solidão, no mundo atual, em razão disso, e a ausência da ideia de bem comum, e, além disso, para quem está trabalhando com o adolescente, há uma ideia fundamental no mundo de hoje que é a ideia de utilidade."
A psicanalista explicou também que a dificuldade de se costurar um projeto para o futuro nos dias de hoje ajuda a explicar o aumento dos casos. " A relação com o tempo mudou, mudou a forma de estar no mundo", diz Teresa Pinheiro." E nessa forma de estar no mundo, que virou muito imediatista, a dificuldade de construir projetos futuros para a garotada ficou muito grande. Já era difícil, quando a gente era garoto, ter projetos de futuro. Um menino de 18 anos não consegue se imaginar com 80.
Com essa mudança completa na relação com o tempo, fica anda mais difícil, pois tudo é muito imediato. A dificuldade de se costurar um projeto futuro implica nas características narcísicas de uma depressão. Isso a escola tenta suprir de alguma forma: ensinar o garoto a ter um projeto, a fazer uma pesquisa que começa em março e termina em dezembro, isso vai dando uma costura no tempo que dá a possibilidade de ele se projetar no futuro."
"A outra coisa é a valorização extrema que se fez da aquisição de objetos. O mundo do consumo incutiu a ideia de que você é aquilo que você tem. E isso é muito ruim. Porque, se você não tem, você não é nada. Temos problemas de uma sociedade de consumo que quer vender e vai imprimir esse tipo de pensamento. Acho que, sobretudo, implicar o jovem como um fator fundamental na sociedade, na escola, no bairro, na rua, dar-lhe a ideia de que ele pode fazer a diferença seria fundamental. Agora, isso é difícil. O mundo não caminha para isso, mas, sim, caminha para cada vez mais fazer o jovem desacreditar em tudo.", acrescenta a pesquisadora. 
Quando o tema da prescrição de medicamentos para o tratamento da depressão foi abordado, a psicanalista esclareceu; " Tratar da depressão é difícil, mas lançar mão só do medicamento é inócuo. Acho que isso faz parte do imediatismo, da relação com o tempo e da sociedade do consumo. Se tomar um remédio me fizer sentir melhor amanhã, eu prefiro isso do que qualquer outra coisa. Só que acaba não dando certo. É muito complicado."
Teresa Pinheiro finalizou a entrevista destacando a importância do papel da escola no combate as raízes da depressão: "Somos seres de sociedade e o terrível é que a sociedade de consumo, do sucesso, que exclui o perdedor, é uma sociedade em que não existem grupos. Mas isso faz parte da necessidade afetiva. A escola tem um papel fundamental e pode fazer isso de uma maneira incrível: implicar os alunos em coisas para eles mesmos." 
Fonte: Revista Carta na Escola 

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