Nem Aí Pro Fim do Mundo

Pequenos animais invertebrados que resistem às condições extremas de temperatura, pressão, radiação etc, os tardígrados conseguem viver  no vácuo espacial, podem ficar 10 anos sem comer e sobreviver até os 120 anos de idade

Sempre que se inicia um novo ano, emergem em todo canto aquelas profecias nefastas sobre o fim do mundo. Saiba que existe um grupo de animais invertebrados tão resistentes, mas tão resistentes, que eles não estão nem um pouco preocupados com essas previsões apocalípticas. São os tardígrados
Também chamado de urso d’água ou leitões do musgo, essas criaturas são na verdade invertebrados do filo Tardigrada, um filo de pequenos animais segmentados, relacionados com os artrópodes. Sua distribuição é amplíssima. Em musgos, são encontrados com uma densidade de dois milhões por metro quadrado. Praticamente, em quase todos os corpos d’água é possível encontrá-los. Há espécies desde o Himalaia (6.000 m) até zonas abismais (-4.000 m), do Equador às regiões polares. Até hoje, foram identificadas mais de mil espécies.
Esses animais possuem uma anatomia complexa, são recobertos de quitina e não existe sistema circulatório e nem aparelho respiratório, as trocas gasosas são realizadas de forma aleatória em qualquer parte do corpo. A grande maioria se alimenta sugando o conteúdo celular de bactérias ou de algas. Possuem oito patas, cada pata possui de quatro a oito pequenas garras. Possuem também um estilete na cabeça usado para perfurar plantas e sugar a seiva e seu corpo varia de 0,05 a 1,25mm. Vivem entre os musgos e liquens, podendo ser fortemente pigmentados, indo do laranja avermelhado ao verde oliva. O nome "tardígrado" foi dado pelo naturalista italiano Lazzaro Spallanzani, responsável pela descrição de várias espécies e pela classificação de acordo com a locomoção desses animais, uma vez que "tardígrados" significa  "de passos lentos".
A longevidade é uma das grandes características desses animais; podem viver até os 120 anos, um recorde para um animal com um tamanho tão pequeno. Podem permanecer 10 anos sem água e comida e sobreviver por 10 dias no vácuo espacial, Quando existem condições adversas como extrema seca, os tardígrados simplesmente “desligam” seu metabolismo. O tardígrado precisa estar sempre na água. Se ele sai da água, se encolhe todo, assume uma forma esférica e entra em uma espécie de estado de hibernação chamado criptobiose (foto). Nesse processo, ele consegue desidratar o corpo, fabricar um revestimento extra da cutícula do corpo, e essa desidratação inibe as reações que os levaria a morte.
Graças à criptobiose, os tardígrados são extremófilos, isto é, capazes de sobreviver em condições bastante hostis. Por isso, já houve até pesquisas sobre eles no espaço. Em setembro de 2007, a Agência Espacial Européia realizou uma pesquisa utilizando os tardígrados. Os cientistas colocaram os bichinhos em uma cápsula espacial, a Foton-M3, e os enviaram ao espaço. Resultado: eles não só sobreviveram aos raios cósmicos, radiação ultravioleta e falta de oxigênio, mas ainda foram capazes de reproduzirem num ambiente tão inóspito. Para ter uma noção, no espaço, os raios ultravioletas são cerca de mil vezes mais intensos do que os encontrados na Terra
Como se não bastasse, os tardígrados são capazes de suportar a pressão de 75 mil atmosferas, o equivalente a dezenas de vezes a pressão enfrentada pelos animais dos locais mais profundos do oceano, nas zonas abissais. Suportam também imersões durante alguns minutos em temperaturas de 200 ºC e resistem a solventes como o álcool etílico a 96% ou éter. São capazes de sobreviver à exposição de 5700 grays de radiação, mil vezes a quantidade suportável por um ser humano, além de possuir a inacreditável capacidade de reparar o seu DNA de danos causados por radiação.
Algumas universidades americanas fizeram pesquisas com tardígrados, congelando-os em uma temperatura bem próxima do zero absoluto, cerca de -271 ºC. Os cientistas não ficaram surpresos quando “reanimaram” os animais colocando apenas água e descongelando-os. Não se esperaria que nenhum animal sobrevivesse após terem sido congelados nesta temperatura, mas os tardígrados realmente provaram que são completamente diferente de todo o tipo de vida conhecida no nosso planeta.
Na Universidade de Manitoba, no Canadá, um grupo de pesquisadores está fazendo um novo estudo com esses animais. Eles estão construindo um minissatélite, que vai ser lançado no ano que vem. E dessa vez, os cientistas querem que os tardígrados saiam do estado de criptobiose em pleno espaço.
“A gente quer reidratá-los no espaço para ver se eles sobrevivem a longas viagens interplanetárias. Já encontraram vestígios de água em Marte por exemplo. Queremos saber se o tardígrado poderia sobreviver por lá”, afirma a pesquisadora Viridiana Ureña. 
Na verdade, o que os cientistas querem com os estudos com tardígrados é destrinchar os mecanismos biológicos que fazem com que esses animais voltem do espaço e continuem a viver normalmente, para em um futuro, talvez distante, aplicar todos esses conhecimentos nos seres humanos. Mas, por enquanto, vamos continuar admirando boquiabertos os "superpoderes" desses bichinhos.
O mundo um dia pode até ‘acabar’ e os tardígrados ainda estarão por aqui, pequenos e resistentes, espalhados pela Terra como o são desde o período Cambriano há 530 milhões de anos. Agora, quanto a nós, humanos....

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