Estudando Onças na Natureza

Estudos recentes têm demonstrado que as onças-pintadas são mais sociáveis do que se imaginava. Entretanto, na condução de um estudo das onças em seu ambiente natural se faz necessário a aplicação de técnicas e cuidados que só competem aos especialistas

Um dos temas mais importantes e interessantes no estudo das onças é o conhecimento dos seus hábitos alimentares, ou ecologia alimentar. As técnicas que permitem a coleta de dados sobre esse aspecto envolvem desde a simples coleta de fezes (e a identificação de cada item encontrado nelas), à procura por carcaças e restos de animais abatidos (com o registro de todas as informações pertinentes), ao acompanhamento instantâneo de indivíduos aparelhados com rádio colares, através da telemetria VHF, em suas andanças à procura por alimento (quando possível mantendo uma distância em que se possam definir os tipos de habitats utilizados e possíveis preferências individuais por algumas espécies de presas). Nessa ultima técnica, com o uso de telemetria baseada em GPS, é possível definir os aglomerados de localizações dos indivíduos aparelhados onde, supostamente, possa ter ocorrido um ato de predação.
Em alguns casos, até a técnica de armadilhas fotográficas tem produzido, com o aumento no seu uso, cada vez mais casos fortuitos com fotos extraordinárias, mostrando evidências de predação e alimentação. Atualmente, as armadilhas fotográficas vêm substituído, até certo ponto, o monitoramento intensivo de carcaças que se fazia nos primórdios dos estudos com felinos. No primeiro estudo dos tigres, na Índia, o Dr. George Schaller (em The Deer and the Tiger, University of Chicago Press, 1967) deixava búfalos amarrados para atrair tigres e poder estudar técnicas de predação, alimentação e organização social.

Segundo os pesquisadores, o monitoramento de carcaças é praticamente uma ciência forense, onde no local do abate cada detalhe pode trazer informações importantes para elucidar o "caso". Mas antes de se aproximar da carcaça, é necessário ter muita cautela, observando cuidadosamente os rastros e sinais no entorno, evitando o risco de encontrar a onça ainda na carcaça. Com o tempo ganha-se experiência, mas a cautela sempre é necessária. A busca por carcaças também é interessante, obviamente o primeiro sinal a se procurar são urubus em algum ponto da vasta planície que faz parte de qualquer fazenda inserida no Pantanal.
Um cuidado essencial é verificar se os urubus estão pousados no chão, perto da carcaça, ou nos galhos de árvores. Na maioria das vezes, a onça arrasta a carcaça para um local de vegetação densa, onde ela possa comer tranquila, e com isso, nem sempre é possível ter uma visão direta da carcaça. Por isso o comportamento dos urubus é a chave para saber se a onça está ou não junto à carcaça. Urubus estão sempre em alerta em relação às onças, pois se facilitarem, podem ser mortos. Portanto, se eles estiverem tranquilos na carcaça, é possível se aproximar para investigar o local e coletar as informações necessárias.
É importante descrever o local da predação, como a presa foi abatida, o método de abate (locais dos ferimentos e causa mortis), descobrir se foi onça-pintada ou onça-parda, se o animal foi arrastado e qual a distância, a idade estimada da presa, se presa nativa ou animal doméstico, presença de rastros, se o predador estava sozinho ou acompanhado (se fêmea com filhotes, casal em corte, irmãos subadultos, etc), tipo de habitat, distância de áreas florestadas e qualquer outra informação que possa ajudar a entender o evento como um todo.
Ao estudar a dieta da onça-pintada os pesquisadores procuram entender o seu papel na comunidade ecológica em que ela vive e em conflitos com os humanos, quando as onças predam o gado e outros animais domésticos. Essa informação os permitem saber o que é necessário para que uma onça sobreviva em uma determinada área e como podem melhorar as condições em áreas de conflito. Uma vez que mais de 95% do Pantanal é utilizado para a pecuária, é de se esperar que muitas das presas que as onças encontram naturalmente é gado.
Como diagnosticar a causa da morte de uma determinado animal - ou como saber se foi uma onça-parda ou onça-pintada que matou o animal? Quando uma carcaça é encontrada, eles fazem uma necropsia detalhada, para determinar a causa da morte. Frequentemente, as presas (incluindo o gado) podem ter morrido por doença, acidentes, fraqueza por má-nutrição, ou mordidas de serpentes peçonhentas. No entanto, quando um animal foi morto por um predador, são deixados alguns sinais óbvios, que permitem a identificação.
Uma onça-parda mata a sua presa com uma mordida na garganta, começando a comer pelos quartos traseiros. A onça-pintada, no entanto, utiliza uma técnica que difere de todos os outros grandes felinos. Seu nome em inglês, jaguar, é derivado da palavra tupi-guarani "yaguara", que significa "aquele que mata sua presa em um pulo". A onça-pintada caça por emboscada, tipicamente se aproximando sorrateiramente de sua presa, aproveitando qualquer vegetação para se mimetizar no ambiente, até uma distância em que possa deslanchar um ataque de surpresa. As suas mandíbulas são extremamente potentes caracterizam a sua mordida como a de maior força, dentre todos os felinos. A onça pintada mata as suas presas como uma mordida na cabeça, quebrando ossos no processo. Depois, consome preferencialmente os quartos dianteiros da carcaça.
As onças-pintadas são protegidas por leis em quase todos os países em que ainda ocorrem, mas, em geral, ainda são perseguidas por suas peles ou como troféus. Empregados em fazendas de pecuária ainda matam esses felinos, ostensivamente, para proteger o gado da predação. Mas embora as onças realmente matem gado, essa percentagem é apenas uma parte muito pequena do que é perdido por causa de doenças, parasitas, enchentes e outros fatores.
Fonte: O Eco ( adaptado)

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