Educação: Como Chegar no Topo?

Escritora e jornalista americana reúne em livro as conclusões de sua pesquisa educacional em que compara os sistemas educacionais ao redor de mundo. Ela afirma que gastar mais não significa aumentar a chance de aprendizado e revela que a atração pela mediocridade intelectual e acadêmica da maioria da população e a simpatia com que encaramos a desigualdade social e educacional são bem parecidas no Brasil e nos EUA

Amanda Ripley, escritora e jornalista investigativa em revistas norte-americanas, escreveu o best seller traduzido para o português "As Crianças Mais Inteligentes do Mundo – E como elas chegaram lá",com o objetivo de reunir as conclusões que chegou em suas pesquisas educacionais ao redor do mundo. No livro, além de entrevistas com pesquisadores e especialistas, ela acompanha o intercâmbio de três estudantes de Ensino Médio que comparam as escolas de sua terra natal com as dos países nos quais foram morar: Coreia do Sul, Finlândia e Polônia. “Em suas histórias, encontrei a vida que estava faltando na papelada sobre leis e diretrizes educacionais”, afirma a jornalista.
Há três anos, Amanda começou a ouvir os alunos de professores que conseguiam resultados muito melhores do que os colegas e notou que, na vida real, o que realmente fazia a diferença eram fatores que não estavam na pauta das políticas públicas. Nesse tempo, ela viajou a nove cidades em quatro países. Ela confiou em dados como testes escolares, taxas de aprovação e outros parâmetros de equidade e qualidade para escolher os países que renderiam as histórias mais atraentes. Depois, teve ajuda de programas de intercâmbio para achar norte-americanos que iriam para esses destinos. Entrevistou alguns em busca de pessoas curiosas, de mente aberta e que fossem responsáveis o suficiente para estar no Skype, quando lhe dissessem que estariam. Segundo ela, não foi difícil,pois alunos que procuram experiências no exterior tendem a ser muito planejados e refletir sobre suas experiências.
No começo, ela queria saber se era verdade algo que vinha ouvindo: "existiam países com políticas educacionais capazes de colocar todas as crianças em nível elevado de pensamento crítico? E, se realmente isso existe, como conseguem? Essas questões permaneceram comigo, mas com o tempo comecei a querer saber mais sobre as vidas e as opiniões dos estudantes desses países. Como é ser adolescente na Finlândia em uma terça comum? Qual era a diferença para um dia de um aluno comum nos Estados Unidos? A pesquisa traz dados fascinantes, mas os dados que explicam os resultados estão na vida real."
Em uma entrevista à revista Carta Fundamental, Amanda Ripley relata quais foram as suas maiores surpresas. " Na Coreia do Sul, fiquei fascinada com a intensidade do mercado educacional e com seus extremos. Entrevistei um professor que ganhava 4 milhões de dólares por ano, o que foi emocionante. Por outro lado, vi turmas em que metade dos alunos estava em sono profundo, exaustos de tanto estudar. Enquanto isso, na Finlândia, a história era outra. Os estudantes tinham vidas relativamente balanceadas e gastavam muito tempo brincando na escola primária. Para Kim, a norte-americana cujo intercâmbio eu acompanhei, a grande surpresa foi a forma como os adolescentes olham para a escola. Eles a levam a sério de uma forma que seus colegas de Oklahoma (estado norte-americano) não fazem. As pessoas não são radicalmente diferentes, os tipos de adolescentes estavam lá, mas simplesmente compraram a ideia de que escola importa. Ela notou isso, que eu jamais notaria sozinha."
E quando perguntada sobre como relaciona recursos financeiros e desenvolvimento educacional, a jornalista respondeu: " Dinheiro faz diferença, é claro, assim como a falta dele. No mundo todo, a pobreza influencia resultados educacionais, não há dúvidas sobre isso. O que questiono é quanto ele influencia. Em alguns países, como Canadá, Coreia, Austrália e Estônia, a pobreza das famílias tem menos efeito sobre a educação das crianças do que em países como Estados Unidos. Isso deveria nos dar esperança. É possível reduzir os efeitos da desigualdade com boas escolas."
E acrescentou: " a partir de uma linha de investimento, gastar mais não significa aumentar a chance de aprendizado. A Polônia gasta, por estudante, cerca da metade do que os Estados Unidos, por exemplo. Além disso, é um país com uma parcela significativa de pobres. Mas os adolescentes poloneses têm hoje uma performance melhor do que os norte-americanos em Matemática, Leitura e Ciências no Pisa, e um grande porcentual de concluintes de Ensino Médio."
O entrevistar lembrou que uma das qualidades em comum dos países com bons resultados é a seleção rigorosa de professores. E então, foi perguntado à jornalista, como fazer isso em um contexto em que faltam milhares de professores, como no Brasil? Amanda respondeu: "As superpotências mundiais em educação tornaram mais difícil entrar em faculdades de formação de professores e fizeram o ensino mais rigoroso e prático. Em alguns lugares, com escassez de professores, essa mudança é um projeto de longo prazo. Em outros, a logística não seria tão difícil. Em muitos estados norte-americanos, por exemplo, educamos o dobro de professores do ensino primário do que realmente precisamos. Permitimos que todos entrem, depois damos pouca oportunidade de treinamento forte em salas de aula reais com professores bons. Logo, temos o atual resultado."
Segundo as conclusões de Amanda Ripley: "Dada a realidade de tempo e dinheiro limitados, é importante que os pais priorizem as atividades que ajudem seus filhos a seguir em frente em um mundo moderno. As pesquisas são muito claras sobre quais são elas, mais claras do que eu esperava. Leia para seus filhos quase todos os dias quando eles são menores, e fale com eles sobre o que estão lendo quando estiverem maiores. Brinque e faça jogos com números e padrões quando estiverem em um ônibus ou cozinhando, por exemplo. Faça perguntas como “o que você acha que vai acontecer a seguir?” quando estiverem acompanhando uma história. Com os maiores fale sobre livros, filmes, música e eventos recentes. Force-os a pensar, questionar, investigar. Eles precisarão fazer isso em suas vidas.
Para finalizar, ela acrescentou; "A partir de um ponto, memorizar mais informações não ajuda. O que importa é curiosidade, agilidade, interesse em aprender, tudo isso requer motivação, que pode começar por uma escola interessante. O mundo está ficando mais meritocrata e aberto às pessoas mais motivadas. Com o mínimo de estrutura e motivação elas podem aprender muito mais online do que há pouco tempo. Elas podem transformar ideias em filmes, livros ou engajamento sem grandes investimentos e podem expor sem intermediários. Mas isso tudo requer automotivação, pensamento crítico e perseverança."

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