O Que Causou a Extinção dos Grandes Mamíferos das Américas?

Pesquisa usando simulações ecológicas sugerem que a chegada do homem foi determinante para a extinção dos grandes mamíferos que habitavam as Américas no Pleistoceno. Na foto vemos uma preguiça-gigante, um representante desta megafauna extinta, em exposição no museu de zoologia da USP.


Biólogo da Universidade de São Paulo (USP) procura respostas para entender o que causou a extinção dos grandes mamíferos que habitavam o continente americano por volta de dez mil anos atrás. Dois protagonistas disputam a culpa pelas chamadas extinções da megafauna do Pleistoceno: os seres humanos e as mudanças climáticas. 
Segundo Mathias Pires, autor do estudo, tudo leva crer que o homem foi o principal responsável pela extinção de grandes animais como as preguiças-gigantes, mastodontes e tigres-dentes-de-sabre que viviam por aqui neste período. Ele explica em seu artigo publicado em setembro na revista Proceedings of the Royal Society B., que o homem não caçou todos os mastodontes, e todas as preguiças-gigantes que haviam naquele tempo. Sua proposta é mais sofisticada e envolve modelos matemáticos para reconstruir o funcionamento das redes ecológicas da época. Os resultados revelam que as comunidades de grandes mamíferos do Pleistoceno não eram especialmente instáveis, mas sensíveis ao acréscimo de um predador eficaz como o homem.
A teoria que serve como base para o trabalho postula que o número de espécies de um sistema ecológico, a quantidade e a força das interações entre elas e a forma como essas interações são distribuídas definem a resistência da rede a perturbações. Com isso em mente, Pires fez uma reconstrução virtual das redes ecológicas que caracterizariam cinco localidades na América do Norte e quatro na América do Sul, levando em conta a fauna descrita em artigos científicos e no banco de dados público Paleobiology Database. As simulações mostraram que a chegada do novo predador aumentava a conectividade entre os integrantes da rede, gerando instabilidade e aumentando o risco de extinções. “Se o sistema é muito conectado, o efeito de uma perturbação se propaga melhor”, explica Pires. Segundo ele, as interações entre as espécies propagam os efeitos sentidos por cada uma delas, que incluem redução populacional. “O resultado pode ser o colapso da comunidade.”
O estudo mostrou também uma diferença entre as Américas: a alta diversidade de herbívoros em relação aos carnívoros pode ter favorecido uma maior estabilidade na parte sul do continente em relação ao norte, onde havia mais predadores. A sugestão condiz com a informação de outros estudos, de que as extinções teriam levado mais tempo na América do Sul.
Para ele, as coincidências entre as extinções e a chegada do ser humano já eram um indício forte de que o caçador bípede não foi apenas um espectador no sumiço da megafauna. Isso não quer dizer que o homem trabalhou sozinho: considera-se que os animais já estavam debilitados por efeitos de flutuações climáticas que vinham acontecendo ao longo do Pleistoceno. “O conjunto de evidências acumuladas e os nossos resultados usando simulações ecológicas sugerem que os homens podem ter dado o golpe de misericórdia.”

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