A Ressurreição Científica de Lamarck

Refutadas por muitos e aceitas por alguns, as ideias lamarckistas a respeito da evolução das espécies ganhou novos adeptos e atualmente serve de inspiração para se explicar mecanismos biológicos complexos como a epigenética e o  sistema CRISPR. Mas, afinal o que restou de Lamarck na Biologia?

Os livros de biologia consagraram a figura do naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829), ou simplesmente Lamarck, como "o cara do pescoço da girafa" ou "o cara que dizia o contrário de Darwin". Porém, a ciência moderna está tentando desfazer essa imagem de coadjuvante da teoria da evolução atribuída historicamente a Lamarck.
De modo geral, as ideias lamarckista a respeito da evolução das espécies fundamentavam-se em duas leis: '‘uso e desuso’ e ‘herança dos caracteres adquiridos’'. Segundo um artigo publicado na revista Ciência Hoje Nº 285 ( setembro de 2011), "Lamarck foi o primeiro pesquisador a elaborar um sistema teórico completo para defender e tentar explicar a evolução biológica. Fez isso com base apenas em fenômenos naturais (leis físicas), sem lançar mão de forças imateriais (como ‘alma’, ‘princípio ativo’ e outras) ou entidades transcedentais como um deus (criacionismo).
E, apesar de tudo, nas últimas décadas, têm surgido novas descobertas que estão ressuscitando as ideias de Lamarck para uma parcela da comunidade científica. No final do século XX começou a ser compreendido que certas características adquiridas podiam ser herdadas; por exemplo, a alimentação ou exposição a poluentes podem imprimir marcas químicas no DNA capazes de anular a expressão de um gene. Estas alterações não alteram a seqüência genética, mas uma vez que estão ligadas à molécula de DNA pode ser transmitida aos descendentes se elas afetarem as células germinativas. Conseqüentemente, um indivíduo pode ter alterado o funcionamento de um gene por conta da alimentação que tinha o seu pai. Essas características são chamadas de epigenéticas, e alguns biólogos supõem se tratar de uma demonstração da herança dos caracteres adquiridos a qual tem inspirado uma corrente neolamarckista.
No entanto, outros especialistas questionam se as características epigenéticas realmente respondem ao modelo de Lamarck; em princípio, não são mudanças adaptativas devido aos esforços de um indivíduo, como seria o de "um pianista que aprendeu uma sonata e seu filho herdou a habilidade", conforme assinalou o biólogo evolucionista da Universidade de Harvard (EUA),  David Haig . Para Haig, falar de herança lamarckiana "é um atoleiro semântico", porque depende da definição de cada um.
Devido a esta falta de natureza adaptativa, "é impossível separar completamente o que é herança de caracteres adquiridas e o que é mutação aleatória", na opinião do pesquisador da Universidade de Viena (Áustria), Adam Weiss. Em contrapartida, Haig dá um exemplo a este respeito: a falta de ácido fólico na dieta pode causar alteração epigenética, enquanto um mutagênico em um alimento pode alterar a sequência de DNA. Ambos têm a mesma origem (dieta) e ambos foram herdadas; mas o que é herança lamarckiana e o que responde ao padrão de variação aleatória descrito por Darwin? O que é importante, dizem os cientistas, é como funciona a evolução a longo prazo. E neste sentido, diz Haig, as mudanças epigenéticas também estão lá porque são"um produto da seleção natural darwiniana."
Além da epigenética, existe outro fenômeno recentemente descoberto no qual alguns especialistas vêem a sombra de Lamarck. Muitas bactérias possuem um mecanismo imunológico chamado CRISPR, pelo qual um microrganismo pode incorporar a seus próprio DNA fragmentos genéticos de um vírus invasor, com o propósito de reconhecê-lo e responder a ele em ocasiões futuras. Esta imunidade se adquire, é adaptativa e transmitida para os descendentes. Para o biólogo evolucionista William F. Martin, da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf (Alemanha), o sistema CRISPR é "exatamente o que Lamarck tinha em mente; É um exemplo em biologia que se encaixa no mecanismo previsto. Imunidade adquirida em sentido real: caso encerrado ", disse Martin ao OpenMind.
No entanto, para Martin isso não significa que o ponto de vista da evolução como um todo deve se mover um milímetro de Darwin para Lamarck: "Lamarck estava errado, porque quase toda evolução procede como Darwin pensava." Haig concorda que uma coisa é existir a herança lamarckiana, e outra coisa bem diferente que esta seja o motor da evolução. São escalas diferentes de tempo: "A curto prazo o sistema Lamarckiano poderia ser considerado sob algumas definições, mas a sua evolução a longo prazo é darwiniana." Em suma, escreve Weiss, em um artigo recente publicado na revista Trends in Ecology & Evolução ", reviver Lamarck é injustificado e enganoso." Lamarck era "um cara interessante com uma teoria interessante", conclui Martin; mas também "infeliz".


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