Farmácia Indígena

A medicina atual deve muito ao conhecimento tradicional dos povos nativos sobre a natureza. Medicamentos populares que são facilmente encontrados  hoje nas farmácias foram desenvolvidos graças à sabedoria dos antigos povos indígenas. Para eles uma  doença não se cura apenas com remédio. Exige um ritual completo, com rezas, danças e cantos , pois na cultura deles qualquer problema de saúde envolve corpo, espírito e mente

Muita gente pode não saber, mas a medicina atual deve muito ao conhecimento indígena sobre a natureza. Alguns medicamentos populares que você acha facilmente no balcão de qualquer drogaria pelo mundo afora, só foram desenvolvidos graças ao conhecimento tradicional dos povos nativos. E a ciência está cada vez mais atenta a essa sabedoria, visando a produção de novos fármacos para curar as moléstias que acometem o homem civilizado ao longo dos séculos.

O interessante é a ideia que os índios têm de doença, remédio e cura. Para eles uma  doença não se cura apenas com remédio. Exige um ritual completo, com rezas, danças e cantos , pois na cultura indígena qualquer problema de saúde envolve corpo, espírito e mente. O professor de antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, Renato Athias, estudioso do assunto,  explica o processo da seguinte forma; "Existe uma tríade dentro do processo de cura xamânico: o poder da pessoa que conhece as palavras encantadas, as palavras em si, e a planta, que viabiliza a penetração daquela palavra". Vejamos o exemplo da malária. Para a ciência moderna, esta moléstia é transmitida pela picada do mosquito Anopheles contaminado pelo protozoário Plasmodium, o agente causador da doença. Para os indígenas, o problema é de natureza espiritual, uma praga  jogada por um inimigo ou por espíritos da natureza que foram desrespeitados. Só uma negociação bem-sucedida entre o curandeiro (à base ou não de alucinógenos) e o espírito causador da doença pode salvar o paciente.
Ainda sobre a malária, diz a revista Superinteressante (Edição 316, março de 2013), fonte dessa postagem: " A malária veio a bordo dos navios negreiros, segundo uma recente e extensa pesquisa. E nunca mais saiu do continente. No entanto, os europeus não esperavam encontrar nos índios a primeira arma minimamente útil contra o mal. Na América do Sul, os índios já usavam extrato da casca de cinchona para combater os sintomas. Funcionava. A ponto de jesuítas levarem mudas da planta à Europa. E depois, no século 18, dois químicos franceses, Joseph Pelletier e Joseph Caventou, isolaram a quinina, presente na cinchona."
Toda sabedoria indígena é proveniente de uma intensa e constante observação da natureza. "O acúmulo de conhecimento se dá ao prestar atenção nas semelhanças entre formatos e cores das plantas e as doenças que elas combatem. Por exemplo, a madeira amarela de um tipo de abútua, uma trepadeira, e a seiva amarelada da caopiá, árvore também chamada de pau-de-lacre, são usadas para curar doenças no fígado", diz a Super. Em casos de tosse com sangue, comem Boletus sanguineus, um tipo de cogumelo vermelho. Já a raiz em formato de serpente da parreira-brava serve para curar mordida de cobra. E se for picada daquela jararaca, dá para se livrar do veneno com o sumo da planta Dracontium polyphyllum - as cores do caule lembram a pele da cobra. Os índios repararam em outros detalhes, como no látex que sai da casca de algumas árvores. Exposto ao ar, o líquido parecia um verme. Logo, aquele podia ser um bom remédio para lombriga". "As formas indígenas de classificar remédios naturais são sofisticadas", diz Maria Luiza Garnela, médica e antropóloga da Fundação Oswaldo Cruz na Amazônia. "Envolvem cheiros, identificação de resinas e semelhanças e diferenças entre plantas".
"O próximo passo é encontrar na natureza possibilidades de cura para nada menos que o câncer. Pesquisadores da Unicamp isolaram e sintetizaram componentes do óleo da copaíba", segundo informações da revista. "Deixaram os compostos em contato com células cancerígenas de vários tipos (ovário, próstata, rins, cólon, pulmão, mama, melanoma e leucemia). 'Mostrou potencial como anticancerígeno', diz o químico Paulo Imamura, orientador da pesquisa. Infelizmente, a ideia não saiu do papel, por falta de tempo e dinheiro. 'Seria necessária uma longa pesquisa sobre como preparar em grande escala', completa. Nos EUA, outros pesquisadores estudam a eficácia do melão-de-são-caetano, muito usado contra doenças de pele. Apesar do nome, trata-se de um cipó. E agora, com testes em ratos, o estudo comprovou que o extrato da planta realmente ajuda a reduzir sinais de tumor".
Para finalizar, a matéria da Super esclarece que "Há - e sempre houve - intercâmbio de informações, mesmo que desfavorável à cultura indígena. Índios pernambucanos fazem, hoje, ritual de cura com aspirina na lista de remédios. Práticas tradicionais perdem espaço para a medicina moderna". Algumas até se adaptam. O fato é que a floresta e o laboratório precisam falar a mesma língua.

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