Por Que Só Curamos o Câncer em Ratos?

Por que a ciência consegue curar apenas o câncer em ratos, mas não obtêm os mesmos resultados em seres humanos? Embora ratos e humanos tenham quase o mesmo número de genes (temos apenas 300 a mais) sabemos que simplesmente transferir o resultados dos ratos a humanos não é viável. Saiba por que.

A química pesquisadora Dra. Roberta Drekener procurou responder essa pergunta em sua matéria publicada em 2 de dezembro de 2015 no Blog de Ciência da Unicamp. Em um texto leve e de fácil compreensão, a autora explica porque a ciência consegue excelentes resultados no combate ao câncer em ratos, mas não se obtêm os mesmos resultados com os seres humanos.
"Embora ratos e humanos tenham quase o mesmo número de genes (temos apenas 300 a mais) sabemos que simplesmente transferir o resultados dos ratos a humanos não é viável", esclarece Drekener. "Em partes devido a nosso metabolismo ser mais diferente, em partes pelo tipo de câncer com o qual o animal foi contaminado. Sim, contaminamos ratinhos com câncer de propósito, o câncer é colocado lá. Desta maneira, o câncer dos ratos é mais uniforme, quando em humanos temos diferentes tipos de variação celular."
"Quando um novo remédio está sendo desenvolvido, a primeira etapa é testar em células in vitro. Falando de câncer, são feitos testes com o candidato a fármaco (chamaremos de droga) em células de câncer no laboratório, se as células não se multiplicaram na taxa esperada (acompanhamento com células sem a droga) ou diminuíram em quantidade, a droga é promissora.
Quando temos um bom resultado, esta droga é aplicada em ratos que estão doentes, ratinhos com câncer. Novamente, se o tumor diminuiu ou regrediu temos um resultado interessante." Mas , por que sempre eles, os ratinhos?
Dentre as razões para que os ratos sejam escolhidos para utilização em pesquisas, está seu tamanho. Por serem pequenos, podem ser mantidos em lugares menores, ocupando pouco espaço, além de se adaptarem rapidamente a novos ambientes. Eles também se reproduzem rápido e têm vida estimada de no máximo 3 anos, o que permite que várias gerações de ratos sejam observadas em curtos períodos de tempo.
Ratos também são de custo relativamente baixo, o que permite a compra de grandes quantidades para com criadores de animais especificamente criados para participarem de pesquisas. Por serem calmos, até dóceis, também é possível manuseá-los de forma tranquila.
Segundo informações do site Life Little Mysteries e do Instituto de Pesquisas do Genoma Humano, os ratos são praticamente idênticos geneticamente, o que ajuda na uniformização dos resultados dos testes. Geneticamente e biologicamente, além das características comportamentais, os ratos são parecidos com os humanos, e muitos sintomas humanos podem ser aplicados nos pequenos roedores.
A anatomia, fisiologia e a genética já são bem conhecidas pelos cientistas, o que torna mais fácil entender quis mudanças no comportamento dos ratos são causadas pela alteração da genética dos ratos para que eles carreguem genes similares aos de doenças que infectam os humanos.
"Outra coisa importante é o tempo de tratamento", explica a Dra. Roberta em relação ao estudo do câncer. Em ratos os experimentos são conduzidos em tempos curtos (lembre-se que a vida de um rato é em torno de 3 anos), enquanto que em humanos, este tratamento pode demorar períodos bem mais longos. Algumas drogas no mercado apresentam um ótimo resultado inicial, entretanto, após alguns meses de tratamento, o tumor volta com mecanismos de resistência. Ou seja, o remédio não funciona mais.
Outra coisa importante é a toxicidade. Durante a história do desenvolvimento de fármacos, muitas drogas foram tidas como espetaculares e quando testadas em humanos, mostraram efeitos colaterais mais desastrosos que seus benefícios. Em ratos, alguns destes efeitos não são observados, ou são em escalas diferentes, entra aí a diferença de farmacocinética", conforme esclarece a pesquisadora logo no início da matéria.
"Uma alternativa é testar as drogas em mamíferos maiores, mas isso é mais caro e envolve lidar com a sociedade. Acho que todos lembram dos biegles do Instituto Royal. Então, eles estavam lá por serem mais parecidos com humanos que os ratos. O mesmo para os primatas utilizados em pesquisa, quanto mais semelhante mais fácil reproduzir em humanos.
Pensando nisso, alguns grupos de pesquisa já estão utilizando animais domésticos que desenvolveram câncer naturalmente, como cachorros, para testar e desenvolver drogas. Esta é uma excelente alternativa, pois os animais tem a chance de viver mais tempo e os resultados são bem próximos do esperado."
Já no final de seu texto, Roberta Drekener faz uma observação a respeito da fosfoetanolamina, substância considerada milagrosa na cura do câncer. Diz a pesquisadora: " Não sabemos por que os resultados encontrados são apenas para ratos, com tipos de tumores bem específicos, com administração bem específica (foram injetados na cavidade do abdomêm) por períodos curtos de tempo. Drogas como esta saem as dúzias diariamente em revistas da área. Quem trabalha com o desenvolvimento de fármacos sabe que esta é só a ponta do iceberg."

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