Bem-vindos ao Antropoceno!

Comissão da União Internacional das Ciências Geológicas (UICG) recomenda o reconhecimento oficial de uma nova época geológica chamada Antropoceno. Essa época é marcada pelo impacto da humanidade sobre o planeta. Segundo os especialistas, o impacto da humanidade no funcionamento do ambiente planetário tornou-se comparável a grandes forças da natureza, como a expansão e retração das geleiras, ou mesmo o meteorito cuja queda teria liquidado os dinossauros."

No 35º Congresso Geológico Internacional, realizado entre os dias 27 de agosto e 4 de setembro deste ano na Cidade do Cabo, África do Sul, a comissão encarregada pela União Internacional das Ciências Geológicas (UICG) recomendou o reconhecimento oficial do início de uma nova época geológica, chamada Antropoceno. Considerado um mito até há algum tempo, o conceito do Antropoceno sugere que a humanidade é a nova força geológica transformando o planeta para além de qualquer reconhecimento, principalmente ao queimar quantidades prodigiosas de carvão, petróleo e gás natural.
A história geológica da Terra se estende por 4,5 bilhões de anos e quatro grandes divisões, ou éons: Hadeano, Arqueano, Proterozoico e Fanerozoico (o atual). Cada éon subdivide-se em eras. O éon Fanerozoico (com 543 milhões de anos) tem três: Paleozoico, Mesozoico e Cenozoico. As eras são divididas em períodos. A atual era Cenozoica (65 milhões de anos), tem dois: o Paleogeno e o Neogeno. Os períodos, por sua vez, dividem-se em épocas. O nosso período Neogeno (de 23 milhões de anos) possui quatro épocas, por enquanto: o Mioceno, o Plioceno, o Pleistoceno e o Holoceno (iniciado há 12 mil anos). O Antropoceno – a idade recente do homem – seria uma quinta época. Apenas um ponto na linha do tempo.
O termo antropoceno foi cunhado na década de 1980 pelo biólogo norte-americano Eugene Stoermer, mas o conceito começou a ser popularizado em 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen. Vencedor do prêmio Nobel de 1995, pela descoberta dos efeitos danosos de compostos na camada de ozônio, Crutzen indicou 1800 como o início do “primeiro estágio”, de difusão das máquinas a vapor industriais, consumo maciço de combustíveis fósseis e aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, e 1945 do “segundo estágio”, de aceleração súbita da industrialização e do crescimento demográfico.
A maioria dos membros da comissão da UICG sugere uma data precisa: 16 de julho de 1945, detonação da primeira bomba atômica, o experimento Trinity
Outros sugeriram os anos de 1610, data de uma marcada retração no gás carbônico atmosférico e expansão de florestas devidas ao colapso das civilizações e ao genocídio das populações ameríndias após a conquista europeia (acompanhada pela redistribuição de espécies vegetais e animais pelas navegações) e 1964, auge do depósito de isótopos radioativos pelos testes nucleares pela superfície da Terra
De acordo com a matéria publicada em 09 de setembro na revista Carta Capital, "o impacto da humanidade no funcionamento do ambiente planetário tornou-se comparável a grandes forças da natureza, como a expansão e retração das geleiras, ou mesmo o meteorito cuja queda teria liquidado os dinossauros."
Segue a matéria da Carta assinada pelo editor internacional da revista, Antonio Luiz M. C. Costa, atestando que a chegada do Antropoceno nem de longe pode ser celebrada como a advento de uma nova era, no melhor sentido da palavra. Muito pelo contrário. Diz a matéria : " Espécies de animais e vegetais extinguem-se a um ritmo cem a mil vezes mais rápido do que em tempos normais. A maioria das espécies selvagens de médio e grande porte está hoje extinta ou aparentemente condenada – inclusive algumas das mais icônicas, como leões, rinocerontes, onças e elefantes – e os domésticos se multiplicaram absurdamente." 
"Não foi uma mudança de grau, mas de qualidade", diz a Carta Capital, "da qual nos damos conta tarde demais para revertê-la. É possível, no máximo, tentar desacelerá-la, e isso se mudarem de direção os ventos direitistas hoje prevalecentes na política e na economia e o desenvolvimento, promoção e difusão de tecnologias mais limpas se tornarem a prioridade máxima.'
Este cenário de caos pintado pelos especialistas não se trata apenas de puro alarmismo Segundo a matéria da revista " Não adianta fechar os olhos ao inexorável: a população do planeta atingirá pelo menos 9 bilhões em 2050 e, enquanto não se cogitar de mudar radicalmente o sistema econômico, o crescimento econômico a qualquer custo continua a ser objetivo de pobres sufocados pela miséria e pelo desemprego, da classe média em busca de melhores oportunidades e de ricos atrás de lucros ainda maiores. Para não falar de indivíduos, governos e empresas não enxergam além das dificuldades presentes ou, quando muito, do tempo de vida dos atuais dirigentes.
E a matéria termina apontando duas possibilidades. Uma é a humanidade aprender a sustentar um ponto de equilíbrio artificial com o ambiente terrestre, no qual seja possível sobreviver ainda que em condições muito diferentes daquelas às quais a espécie humana se adaptou biologicamente e nas quais construiu suas culturas e civilizações. Será um mundo mais quente, de ar viciado, oceanos ácidos, terras habitáveis reduzidas em extensão, sem consumo de combustíveis fósseis ou materiais não recicláveis e – o que talvez seja ainda mais difícil de imaginar – sem crescimento econômico ou capitalismo tal como os entendemos hoje."
"A outra possibilidade é esse equilíbrio não ser atingido e o ambiente entrar em uma espiral incontrolável de deterioração ambiental até a vida humana se tornar impossível. Tanto pior para a humanidade e para a maioria das espécies vivas ainda existentes, mas o planeta recuperou-se de crises comparáveis. Um extraterrestre de passagem encontraria daqui a dois séculos um mar contaminado e um solo erodido, habitado apenas por ratos, baratas e outras espécies igualmente resistentes e adaptáveis."
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