Um Olhar Sobre a Micrografia de Robert Hooke

Visto nos livros didáticos de biologia do ensino médio como meramente "o descobrir das células", Robert Hooke tinha , na verdade, um interesse pelo mundo microscópico, além de outras habilidades notáveis. Em sua obra Micrographia de 1665, Hooke fornece a descrição detalhada de 57 observações microscópicas feitas com um microscópio que ele próprio fabricou e 3 observações telescópicas. Na figura, a famosa imagem da pulga desenhada por Hooke.  


Micrographia é o título da obra escrita em 1665 por Robert Hooke, que contém a descrição detalhada de cinquenta e sete observações realizadas com o microscópio que o próprio autor fabricou, e três observações telescópicas. A obra foi recebida com entusiasmo por uma parte da comunidade científica europeia. Hooke tinha 28 anos quando a escreveu. A obra foi uma oferta da Royal Society de Londres para impressionar positivamente o monarca inglês.
De acordo com o artigo publicado em 2011 por Roberto de Andrade Martins na revista da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), a Micrographia de Hooke é considerada uma das mais importantes obras científicas de todos os tempos. O título completo da obra de Hooke é Micrographia, or some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses with observations and inquiries thereupon – ou seja, “Micrografia, ou algumas descrições fisiológicas de pequenos corpos, feitas com lentes de aumento, com observações e investigações sobre os mesmos”. Deve-se, no entanto, observar que o adjetivo “fisiológico” não tinha o sentido que lhe atribuímos hoje em dia. Hooke o utilizou no sentido etimológico, de “estudo da natureza”. Até hoje não dispomos uma tradução em português desta importante obra.
Segundo Martins nos conta, "o interesse de Hooke não era especificamente biológico (nem entomológico, embora tenha estudado muitos insetos) e sim microscópico. Ele observou todo tipo de coisas ao microscópio, como fios de seda, areia, a lâmina de uma navalha, vidro, carvão, etc.. Porém, muitas das 60 observações descritas na Micrographia são de objetos biológicos, como a cabeça de uma mosca, uma pulga, uma formiga, o ferrão de uma abelha, os dentes de um caracol, cabelo, superfície de folhas, e uma fina seção de um pedaço de cortiça"
O texto que segue foi retirado do artigo de Martins e nos dá uma visão geral do trabalho deste notável investigador da natureza. Diz o autor: "Hooke utilizou o microscópio para estudar detalhes de vegetais, mofo, cogumelos, esponjas e
muitos outros seres. Entre muitos outros resultados importantes, a Micrographia apresentou a primeira descrição conhecida de um microorganismo, o fungo microscópico Mucor. Os insetos aparecem em 15 das 38 pranchas que ilustram a Micrographia. Cerca de um terço das suas observações se refere a insetos e outros pequenos animais. Os estudos de Hooke a respeito de insetos foram não apenas inovadores em suas descrições, mas também em suas investigações sobre os processos relacionados com os mesmos. Estudou detalhadamente as patas da mosca, o ferrão de uma abelha e a construção da teia por uma aranha. Descreveu cuidadosamente a pulga e o piolho, fornecendo grandes desenhos desses animais. 
A Micrographia tornou-se conhecida principalmente por causa de suas excelentes ilustrações, como a de uma pulga. O dom artístico de Hooke foi essencial para o sucesso da Micrographia, pois conseguiu transformar as imagens confusas produzidas pelo microscópio em magníficas figuras nítidas e convincentes. O trabalho realizado por Hooke na sua Micrographia contribuiu para reforçar sua posição no meio científico da época, e para sua aceitação social pelos demais membros da Royal Society. Mesmo assim, a situação de Hooke sempre permaneceu ambígua, pois era ao mesmo tempo um membro da Royal Society, e um funcionário pago pela mesma. 
A Micrographia apresenta uma descrição detalhada de um microscópio composto utilizado por Hooke, acompanhada por sua representação. De acordo com a descrição apresentada, esse instrumento permitia obter aumento de aproximadamente 40 diâmetros. Os principais problemas do microscópio composto, em meados do século XVII, eram seu pequeno poder de ampliação, a inexistência de um modo de manipular o objeto de estudo (que era simplesmente colocado sobre uma superfície horizontal) e a dificuldade de obter uma boa iluminação do objeto estudado. Os microscópios populares, chamados de 'vidros de pulgas', utilizados para observar insetos, ampliavam apenas cerca de 10 vezes. As imagens observadas nos antigos microscópios sofriam distorções e também um efeito chamado 'aberração cromática' – os detalhes e bordas ficavam indefinidos, cercados por duas faixas avermelhada e azulada. 
" O desenho da pulga é extremamente detalhado e bem feito, sob o ponto de vista artístico, dando a impressão de estarmos vendo um objeto tridimensional. Esta figura foi impressa em uma folha maior, desdobrável (com cerca de 50 cm), para permitir incluir mais detalhes. O desenho impresso é cerca de 200 vezes maior do que o tamanho natural da pulga."
"Como já foi dito, Hooke tinha uma grande habilidade manual, e alegou ter inventado mais de 100 dispositivos – incluindo peças importantes para relógios e a junta universal utilizada até hoje em mecanismos de transmissão. Realizou aperfeiçoamentos importantes em termômetros, microscó- pios, bombas de vácuo e outros dispositivos de uso em pesquisa científica."
Apesar de toda a grandeza de sua obra, o homem por trás do observador implacável da natureza nõa gozava de boa saúde. Martins nos relata que "a saúde de Hooke era péssima, desde pequeno. Quando adulto, tinha terríveis dores de cabeça, vômito, tontura, insônia, pesadelos e outras perturbações."
Ao analisar as referências a Hooke nos livros didáticos atuais de biologia do ensino médio, Taisy Fernandes e Maria Elice Prestes encontraram alguns equívocos consagrados. Diz as autoras no artigo publicado em 2012 pela Revista de Biologia:  "um equívoco historiográfico quando se atribui a Hooke o mérito de ser o “descobridor da célula”, pois o que ele viu e descreveu não é o que hoje entendemos por esse termo. Embora seja comum mencionar as observações de Hooke na história dos estudos sobre a célula, vimos que ele estava interessado em explicar as propriedades da cortiça, e em nenhum momento estabeleceu relação entre as suas observações e uma constituição celular universal das plantas ou dos seres vivos em geral. Na mesma perspectiva, não se pode dizer que “ele deu origem à citologia”, programa dede pesquisa que só se constituiu como tal no século XIX.
Segundo Tavares e prestes, "na historiografia da ciência da primeira metade do século XX, costumava-se atribuir o mérito de descobertas ou a elaboração de teorias exclusivamente à genialidade deste ou daquele pesquisador. A historiografia renovada, que se pratica hoje, busca, sem desmerecer os talentos individuais, a 1reciprocidade entre as condições sociais e materiais de uma época e aqueles que as experenciam e atuam sobre elas'.
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