Newton: Entre a Maçã e o Arco-Íris

Apreciado por sua genialidade e por suas contribuições fundamentais em diversos campos da ciência, a personalidade de Isaac Newton vem sendo desvendada aos poucos por alguns pesquisadores. Surpreendentemente, Newton é visto por eles como uma pessoa detestável, amarga, fria, vingativa, reclusa e estranha. Em relação à sua sexualidade, outros acreditam que ele era um homossexual reprimido e que isso teria influenciado em certos aspectos de sua criatividade.

Na imaginário popular, os avanços científicos são resultantes da genialidade de homens inefáveis, que, por meio de insights, concebem ideias mirabolantes capazes de abalar todas as estruturas do conhecimento. Na realidade, a ciência é fruto de dedicação e de um longo percurso de pesquisa e sempre será uma atividade humana. Ou seja, a ciência é feita por homens e por isso, está impregnada de valores, virtudes, defeitos e idiossincrasias que são próprios dos seres humanos.
Tomemos como exemplo um cientista ilustre como Isaac Newton (1642-1727). Mais reconhecido como físico e matemático, Newton também foi astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo. A sua obra, Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural), é considerada a mais influente na história da ciência. Ao demonstrar a consistência que havia entre o sistema por si idealizado e as leis de Kepler do movimento dos planetas, foi o primeiro a demonstrar que os movimentos de objetos, tanto na Terra como em outros corpos celestes, são governados pelo mesmo conjunto de leis naturais.
O próprio Newton contou muitas vezes de que a inspiração para formular sua teoria da gravitação universal foi a observação da queda de uma maçã de uma árvore. Há muitos estudos que analisam esta história. Embora alguns afirmem que a história da maçã é um mito e que ele não chegou à sua teoria da gravidade de maneira repentina. O próprio Voltaire escreveu em seu Ensaio Sobre Poesia Épica (1727) que "Sir Isaac Newton teve o primeiro pensamento do seu sistema de gravitação ao ver uma maçã cair de uma árvore enquanto caminhava em seus jardins." 
Mas , há controvérsias. Segundo Michael White, editor de ciência de várias publicações inglesas e autor da surpreendente biografia Isaac Newton: o Último Feiticeiro ( Editora Record, 378 páginas), a história da inspiração da queda da fruta diante dos olhos do físico não é para ser levada a sério. White diz em seu livro que Newton adorava fazer autopromoção e que a história da maça foi inventada por ele para encobrir a verdadeira linha de raciocínio oculta que utilizou para chegar às forças gravitacionais.
Aliás, White revela vários aspectos ocultos da personalidade de Sir Isaac em seu livro, inclusive que Newton tinha ideias alheias à corrente científica tradicional: ele era adepto do ocultismo. Entre outras coisas, o biógrafo revela: “Newton era uma pessoa detestável, um homem amargo, estranho, recluso. Diz a lenda que só riu uma vez na vida: quando lhe perguntaram que utilidade via em Euclides. É, com certeza, um exagero, mas não está de todo longe da sua personalidade real”, fala White. “Quando fez 19 anos, ele escreveu uma lista dos pecados que cometera em sua existência e o de número 13 é assombroso: ‘Quis queimar meu padrasto e mãe e a casa sobre eles’. O seguinte tampouco é melhor: ‘Desejei a morte a muitas pessoas e gostaria que realmente ocorresse para alguns’. Era um homem problemático, solitário e sofrido”, fala. “E sempre procurou compensar suas origens humildes com o sucesso. Assim, se na juventude fazia suas pesquisas para glorificar Deus, com o passar do tempo ele queria apenas se promover, fazendo ciência para seu próprio interesse”.
White revela também que durante o seu período como presidente da Royal Society, Newton governou com mão-de-ferro, vingando-se de todos os que acreditava desafetos seus ou não respeitosos o bastante com sua contribuição científica. " Sua primeira medida foi mandar arrancar da parede e queimar o quadro de seu antecessor e crítico, Robert Hooke.”
Entre 1670 e 1672, Newton trabalhou intensamente em problemas relacionados com a óptica e a natureza da luz. Ele demonstrou, de forma clara e precisa, que a luz branca é formada por uma banda de cores (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta) que podiam separar-se por meio de um prisma. O poeta inglês John Keats (1795-1821) não perdoava Newton por ele ter "destruído a poesia do arco-íris". Sem querer ser leviano, nos dias atuais podemos fazer uma outra analogia com o arco-íris para comentar alguns aspectos relativos a sexualidade de Newton, sempre posta em suspeita por diversos autores . Devido ao seu caráter recluso, a sexualidade de Newton já foi assunto de vários escritos, que procuravam mostrá-lo ora como celibatário, ora como homossexual não assumido.
“Newton, tudo leva crer, foi um homossexual reprimido que se apaixonou por Fatio de forma intensa", diz White ao se referir ao matemático suíço Nicholas Fatio de Dullier, um jovem discípulo com o qual Newton trocava tórridas correspondências. "Boa parte das cartas entre os dois tem partes destruídas pelo próprio Newton para encobrir partes mais reveladoras. Ainda assim, o que restou é suficiente para levantar essa hipótese. Seja como for, após pararem subitamente de se corresponder, o físico sofreu um abalo nervoso dramático. Creio que a causa disso foi a recusa do suíço de ir viver com ele na Inglaterra”, acrescenta White. 
Isso não interessaria à posteridade se não tivesse sido o catalisador do fim da criatividade newtoniana. “Após esse acontecimento trágico, ele abandonou o interesse nas suas pesquisas e refugiou-se na vida pública, em especial, com a sua nomeação como Mestre da Casa da Moeda Real”, fala White. “Lá, Newton mostrou o pior de sua personalidade, transformando-se numa autoridade cruel, impiedosa, obsessiva, sempre em busca de qualquer tentativa de falsificação, que punia com rigor exagerado. Não aceitava nenhum tipo de pedido de clemência de condenados à morte e fazia questão de assistir às execuções”, diz o biógrafo.
Tudo isso não diminui a figura imponente de Isaac Newton frente à ciência nem desqualifica o seu legado memorável para o entendimento da física atual. Pelo contrário, reforçam a imagem humana que existe por detrás do eminente cientista que protagonizou uma verdadeira revolução em diversos campos do conhecimento humano.
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