Juliano Moreira: Brasileiro, Médico, Negro e Cientista


Considerado o fundador da psiquiatria no Brasil, o médico baiano Juliano Moreira (1872-1933) era mulato, de família pobre e ferrenho opositor ao pensamento vigente de que a mistura de raças era responsável pela degeneração do povo brasileiro.  Como diretor do Hospício Nacional dos Alienados (RJ),  Moreira humanizou o tratamento e acabou com o aprisionamento dos pacientes. Aboliu os coletes e camisas-de-força, retirou as grades e derrubou os quartos de isolamento. Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse; publicou estudos nas áreas de sifiligrafia, dermatologia, infectologia e anatomia patológica; discutiu a nosografia psiquiátrica e estudou as histórias da medicina e da assistência psiquiátrica no Brasil. 


Considerado o fundador da psiquiatria no Brasil, o médico baiano Juliano Moreira (1872-1933) não tinha as características idealizadas da profissão: era mulato, de família pobre e ferrenho opositor ao pensamento vigente de que a mistura de raças era responsável pela degeneração do povo brasileiro. Graças ao apoio de seu padrinho, o Barão de Itapoã, que era médico e professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Juliano fez os cursos preparatórios e ingressou precocemente aos 13 anos no curso de medicina, em 1886. Formou-se aos 18 anos, com a tese "Sifilis maligna precoce" e, cinco anos depois, prestou concurso para professor substituto da seção de doenças nervosas e mentais desta instituição com a tese sobre as "Discinesias arsenicalis" e foi aprovado em primeiro lugar. De 1895 a 1902, frequentou cursos sobre doenças mentais e visitou muitos asilos na Europa (Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia).
Foi o primeiro médico a utilizar a punção lombar para o diagnóstico de doenças como sífilis cerebral e meningite e teve grande atuação nos meios científicos internacionais. Dirigiu o Hospício Nacional de Alienados no Rio de Janeiro entre 1903 e 1930. Ajudou a fundar a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a Sociedade de Medicina Legal da Bahia. Ingressou na Academia Brasileira de Ciências em 1916 e a presidiu de 1926 a 1929. Foi, ainda, o mentor do primeiro manicômio judiciário do Brasil.
Um aspecto marcante na obra de Juliano Moreira foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação. A posição de Moreira era minoritária entre os médicos, na primeira década do século XX, época em que ele mais diretamente se referiu a esta divergência, Também desafiava outro pressuposto comum à época, de que existiriam doenças mentais próprias dos climas tropicais.
"Convém ressaltar que a teoria da degenerescência nunca seria colocada em questão por Moreira, mas apenas os seus fatores causais. Para ele, na luta contra as degenerações nervosas e mentais, os inimigos a combater seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas, enfim; o trabalho de higienização mental dos povos, disse ele, não deveria ser afetado por 'ridículos preconceitos de cores ou castas."
"Resumidamente, pode-se dizer que, de meados do século XIX até cerca de 1910, o país se definia prioritariamente pela raça, isto é, as discussões sobre o caráter nacional e o futuro da nação passavam pela solução dos problemas atribuídos à miscigenação do povo brasileiro. A partir da década de 1910, e especialmente após o fim da Primeira Guerra Mundial, o movimento pelo saneamento rural do Brasil ganhou força, e se deslocou o foco para a doença ou as doenças dos brasileiros. "
Durante seu trabalho como diretor do Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, Juliano Moreira humanizou o tratamento e acabou com o aprisionamento dos pacientes. Aboliu os coletes e camisas-de-força, retirou as grades e derrubou os quartos de isolamento. Para ele, o hospital deveria lembrar um lar, com jardins, aparelhos de ginásticas, jogos, etc. Instituiu também a assistência aos familiares e reativou as oficinas de trabalho( carpintaria, sapataria, pintura, etc), iniciativas fundamentais para a reintegração dos pacientes à sociedade. Redigiu em 1903, uma lei sobre a reforma da assistência aos pacientes de doenças mentais, referente tanto à estrutura das instituições quanto à proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais.
Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse; inicialmente, publicou estudos nas áreas de sifiligrafia, dermatologia, infectologia e anatomia patológica. A seguir, concentrou-se cada vez mais nas doenças nervosas e mentais, em descrições clínicas e terapêuticas, discutiu a nosografia psiquiátrica e estudou as histórias da medicina e da assistência psiquiátrica no Brasil. Seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas. 
Ao longo de toda sua vida, participou de muitos congressos médicos e representou o Brasil no exterior, na Europa e no Japão. Foi membro de diversas sociedades médicas e antropológicas internacionais; fundou, em colaboração com outros médicos, os periódicos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1905), Arquivos Brasileiros de Medicina (1911) e Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1930) e a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1907).
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