Um País Acuado Por Um Mosquito Odioso

Surgido em áreas silvestres da África, o mosquito Aedes aegypti – nome que significa "odioso do Egito" – é combatido no país desde o início do século passado. Chegou às Américas na época da colonização em navios que faziam o tráfico transatlântico de escravos e,  ao longo dos séculos , encontrou no ambiente urbano um espaço ideal para sua proliferação. O risco de reintrodução da febre amarela urbana no Brasil pelo Aedes é real e a Sociedade Brasileira de Virologia aconselha a todas as pessoas que vivem em áreas de risco que procurem um posto de vacinação para diminuir a chance de ocorrência de um surto urbano da doença.

O risco de reintrodução da febre amarela urbana no Brasil pelo Aedes aegypti acendeu um sinal de alerta nas instituições de saúde pública e trouxe à tona antigas preocupações sobre esta doença no país. A preocupação das autoridades é real, visto que a reurbanização da doença representaria uma tragédia já vivenciada por nossa população no século passado. No início do século XX, epidemias de febre amarela eram constantes em grandes capitais portuárias da América Latina como o Rio de Janeiro, Buenos Aires e Havana. Apesar de a febre amarela ter sido considerada erradicada de áreas urbanas brasileiras em 1942, casos de contaminação já foram confirmados em diversas cidades brasileiras desde 2014.
Ao longo do século XX, o combate à febre amarela impulsionou a pesquisa científica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil e resultou em episódios vitoriosos como a gradual eliminação da doença de áreas urbanas e a erradicação temporária do Aedes aegypti. Entretanto, para alguns historiadores, as lições deixadas por décadas de esforços para erradicar a doença e seu vetor parece que foram ignoradas por governos recentes. Slogans de campanhas governamentais como "um mosquito não pode ser mais forte que um país inteiro" não foram suficientes para impressionar um mosquito dotado de uma grande capacidade de adaptação e especializado em dividir espaços com o ser humano. Pelo contrário, o dia-a-dia tem mostrado que o Aedes tem potencial suficiente para nocautear uma nação inteira.
Surgido em áreas silvestres da África, o mosquito Aedes aegypti – nome que significa "odioso do Egito" – é combatido no país desde o início do século passado. Chegou às Américas na época da colonização em navios que faziam o tráfico transatlântico de escravos e,  ao longo dos séculos , encontrou no ambiente urbano um espaço ideal para sua proliferação. A primeira metade do século XX é marcada por uma série de avanços no conhecimento sobre a febre amarela. No início dos anos 1930, descobriu-se que homens e mosquitos não são os únicos que albergam o vírus; estes também vivem, na forma silvestre da doença, em diversas espécies de macacos, seu hospedeiro natural nas florestas.  Nas regiões rurais e de mata do Brasil, a febre amarela é considerada endêmica onde é transmitida por mosquitos de espécies diferentes, como o Haemagogus e o Sabethes, para macacos e, ocasionalmente, para humanos não vacinados. Assim, mesmo quando eliminada das cidades, a doença tem "reservatórios naturais" de vírus na selva, e nunca poderia ser erradicada totalmente.

Em 1937, finalmente é descoberta uma vacina após anos de pesquisas e incontáveis testes com diferentes cepas do vírus da febre amarela. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz e da Fundação Rockefeller chegaram a uma versão considerada adequada à imunização de grandes contingentes populacionais, e a vacina começou a ser produzida em larga escala no campus do Instituto Oswaldo Cruz.
Até hoje os pesquisadores tentam entender por que o Aedes transmite tantas doenças. Alguns fatores já conhecidos contribuem para tornar o Aedes aegypti um agente tão eficiente para a transmissão dos mais diverso vírus. Entre eles estão, segundo os especialistas, a sua capacidade de se adaptar e sua proximidade do homem. O mosquito tem preferência por água limpa para colocar seus ovos, e qualquer objeto ou local onde houver um mínimo de água parada como uma casca de laranja ou uma tampinha de garrafa serve de criadouro. Embora estudos científicos já mostraram que a falta de água limpa não impede que o mosquito se reproduza. Os ovos também podem permanecer inertes em locais secos por até um ano, e, ao entrar em contato com a água, desenvolvem-se rapidamente num período de sete dias, em média.
"Um aspecto que também favorece a reprodução é o fato de a fêmea colocar em média cem ovos de cada vez, mas não fazer isso em um único local. Em vez disso, ela os distribui por diferentes pontos". Também se trata de um mosquito flexível em seus hábitos de alimentação. O Aedes aegypti é, geralmente, diurno: prefere sair em busca de sangue pela manhã ou no fim da tarde, evitando os momentos mais quentes do dia. Mas, como ele é um mosquito oportunista, se não tiver conseguido se alimentar durante o dia, vai picar de noite.
Para ser capaz de infectar uma pessoa, o vírus precisa estar presente na saliva do inseto. No caso da dengue, por exemplo, após o Aedes aegypti picar alguém que esteja infectado, o vírus leva cerca de dez dias para estar presente em sua saliva. São poucos os mosquitos que vivem mais de dez dias. Mas, quanto menos energia ele precisa gastar para se alimentar e colocar ovos, mais tempo ele vive. Assim, o aglomerado urbano, com muitos locais de criadouro e muitos alvos para picar, faz com que o mosquito viva mais, favorecendo o processo de infecção.
Exterminá-lo também é difícil. Segundo o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos, o Aedes aegypti é "muito resistente", o que faz com que "sua população volte ao seu estado original rapidamente após intervenções naturais ou humanas". Por isso, hoje em dia não se fala mais em erradicação e sim em controle desse vetor.
Uma forma comum de combater o mosquito, a de dispersar uma nuvem de inseticida – técnica popularmente conhecida como "fumacê" –, não é muito eficiente, pois o componente químico tem de entrar em um espiráculo localizado embaixo da asa. Portanto, o inseto precisa estar voando, algo difícil tratando-se de uma espécie que fica na maior parte do tempo em repouso.

Considerando os antecedentes históricos e a proximidade dos surtos com grandes cidades como Belo Horizonte, Vitória e Rio de Janeiro, infestadas de Aedes aegypti, é real o risco de reurbanização da febre amarela, a depender dos índices de infestação vetorial do vetor urbano da febre amarela. Por outro lado, desconhece-se a exata proteção vacinal das populações dessas grandes cidades, mas supõe-se que não chegue a 50%. Existe, portanto, risco de que a introdução do vírus nessas cidades desencadeie surtos urbanos de febre amarela. A Sociedade Brasileira de Virologia acompanha com cautela e preocupação o atual surto e pede a todas as pessoas que vivem em áreas de risco que procurem um posto de vacinação para diminuir a chance de ocorrência de um surto urbano de febre amarela.
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