O Mito da Magreza

Associado ao empoderamento feminino, a valorização do corpo magro e jovem tem contribuído para aumentar os distúrbios ligados à alimentação, as cirurgias plásticas, a pornografia e a necessidade artificialmente provocada de corresponder a um modelo idealizado de mulher, em que a velhice e a obesidade, mais do que pecados, são motivos para a estigmatização. Atualmente, ser magra parece ser a prioridade número 1 de muitas mulheres, pois esta condição agora também está atrelada a um indicativo de uma boa saúde. 

Em seu livro O Mito da Beleza, publicado na década de 1990, a jornalista estadunidense e reconhecida escritora feminista, Naomi Wolf defende que há mecanismos que dominam a mulher na sociedade e sempre que ela consegue se libertar de um, outros mecanismos são criados para se manter este domínio. Para mostrar como a indústria da beleza e o culto à bela fêmea manipulam imagens que minam a resistência psicológica e material femininas, reduzindo as conquistas de mais de 20 anos de lutas a meras ilusões, Naomi escreveu um livro forte, com dados estatísticos contundentes e fúria temperada aqui e ali por humor e lirismo. 
Paralelamente a essa escalada de empoderamento feminino, porém, aumentaram os distúrbios ligados à alimentação, as cirurgias plásticas, a pornografia e a necessidade artificialmente provocada de corresponder a um modelo idealizado de mulher, em que a velhice e a obesidade, mais do que pecados, são motivos para a estigmatização. 
Hoje em dia, a imagem da modelo alta, magra, longilínea, caucasiana, sem rugas, celulites, manchas ou mesmo poros é incessantemente repetida, como uma norma. Esta é a origem do sentimento de inadequação presente em nossa sociedade moderna.
Observando as obras de arte dos séculos passado como o quadro As Três Graças de 1639, pintada por Peter Paul Rubens (1577- 1640), percebemos claramente que a figura feminina idealizada ali se concentrava em mulheres com rostos cheios, quadris largos e coxas generosas, padrões de estética muito diferentes dos exibidos pelas tops model atuais. Em que momento na História, o padrão de beleza deu essa guinada para a valorização do corpo magro e jovem da atualidade?
Segundo aponta a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da
Beleza e representante da Fundação Dove para a Autoestima no Brasil, os padrões que aparecem ao longo da História são, como regra, acessíveis a poucos. "Quando fazer as três refeições básicas diariamente era um luxo e morrer de fome era um destino comum para as pessoas, a gordura alcançava status de privilégio. Agora, já que temos mais comida à disposição, mais jeitos de conservá-la e nossos armários ficam carregados de biscoitos, salgadinhos e similares, comer é fácil. Portanto, não é de estranhar que as modelos extremamente magras sejam colocadas em um pedestal. É mais difícil ser muito magra com tantas calorias à disposição.", diz a psicóloga.
Quando a sociedade passou a apregoar um novo modelo de emancipação baseado na busca por um corpo magro e jovem, uma enxurrada de sacrifícios, dietas mirabolantes, desafios malucos e técnicas cirúrgicas incrementadas passaram a povoar o universo feminino. Atualmente, ser magra parece ser a prioridade número 1 de muitas mulheres, pois esta condição agora também está atrelada a um indicativo de uma boa saúde. 
De acordo com os dados apresentados no livro de Naomi Wolf, as modelos atuais passaram a ser 23% mais magras do que uma mulher padrão e não mais 8%, como costumava ser, com as moças mais cheinhas. De 1966 e 1969, a porcentagem de alunas que se consideravam gordas saltou de 50 para 80%. "Com a onda de dieta ganhando força, Naomi Wolf comparou as calorias que 'deveriam' ser ingeridas para alcançar o corpo perfeito – 800, 1.000 calorias diariamente. Para ter uma ideia, no gueto de Lodz, em 1941, em pleno nazismo, os judeus se alimentavam de rações que tinham de 500 a 1.200 calorias por dia. Não é à toa que chegamos a extremos de magreza por aí", diz o texto da matéria Por que achamos que ser magro é bonito? publicado na revista Superinteressante da Editora Abril.
"Hoje, só no Brasil, um terço das meninas que estão no 9º ano do Ensino Fundamental já se preocupam com o peso, de acordo com uma pesquisa de 2013 do IBGE. A nível global, a probabilidade de que uma moça com idade entre 15 e 24 anos morra em decorrência de anorexia é 12 vezes maior que por qualquer outra causa. O Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry constatou que cerca de 60% das alunas no ensino médio já fazem dieta. A preocupação com a balança chega a atingir meninas com 5 anos de idade.
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (a Unifesp), em 2002, analisou o valor nutricional de 112 dietas que apareciam nas revistas brasileiras à época. Resultado: só uma delas atendia a requisitos mínimos para garantir a nutrição da pessoa, e a maioria esmagadora era cilada, prejudicando a saúde da pessoa que buscava a boa forma", diz a matéria da Super.
Com a ascensão das redes sociais na internet, a coisa piorou. Facebook, Instagram, Twitter e as outras tantas redes sociais colaboram para a obsessão por corpos cada vez mais magros. Esses sites espalham ideias sobre a imagem corporal com uma velocidade estonteante que atingem prontamente milhões de pessoas do mundo todo, de todas as idades.
A obrigação de ser sarada agora também afeta o período gestacional. A gravidez, que antes era um território seguro, aparentemente entrou no jogo com a nova moda da “mãe fitness”, aquela com uma barriga pequena e sarada, mesmo com o volume extra, já que abriga um bebê. Se uma mulher “comum” já se sentia fracassada por não conseguir voltar ao seu peso original – ao contrário das famosas, como vemos por aí -, imagine agora. 
“Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão pela beleza feminina, mas uma obsessão pela obediência feminina”, diz Naomi Wolf em seu livro. Qualquer mulher que desobedeça, voluntária ou involuntariamente um padrão estabelecido de beleza, é taxada de feia, estranha ou desleixada. Afinal, o corpo da mulher está aí para ser observado.
Para saber mais, clique nos links acima

Comentários

  1. Excelente artigo. A obsessão pela magreza e outros padrões inatingíveis de beleza tomam tempo e roubam a saúde da mulher prejudicado seu desenvolvimento intelectual e profissional.
    Na área da saúde os índices de peso, circunferência de cintura e outros são cada vez mais rigorosos necessitando de medicamentos e procedimentos médicos que podem trazer consequências bem ruins.

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