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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Invasão das Águas-Vivas na Costa Brasileira

Enquanto a maior parte das espécies animais luta por sua sobrevivência, a água-viva está em crescimento desordenado e causando danos ao ecossistema marinho

No Brasil, de alguns anos para cá, houve um aumento considerável de águas-vivas nas praias brasileiras, chegando a causar pânico entre os banhistas. As mudanças climáticas da Terra, impulsionadas pelo comportamento humano, que elevam a temperatura do planeta e a dos mares, além da pesca predatória industrial, têm criado "zonas mortas" onde predominam zooplânctons (conjunto de organismos aquáticos que não tem capacidade fotossintética e que vivem dispersos na coluna de água, sendo arrastados pelas correntes), que servem de alimento das águas-vivas. O que está acontecendo é que esse animal de 600 milhões de anos, que já sobreviveu a diversas eras e extinções de espécies, está se proliferando absurdamente, irrefreavelmente,e lotando aos milhões diversos mares.
Segundo o biólogo Guilherme Augusto Domenichelli é difícil afirmar  se o aparecimento das águas-vivas está relacionado somente à rota migratória (elas  costumam migrar para águas mais quentes). Já foram encontradas no litoral brasileiro espécies de outros países. Não se sabe como esses animais chegaram aqui : se por mudanças  de rota ou por "carona" nos cascos de navios. O certo é que todo ser vivo introduzido em determinada região afeta muito o ambiente natural do local, podendo trazer danos às espécies nativas. Para Domenichelli, as alterações  climáticas ou o desequilíbrio ambiental no habitat da espécie pode ter sido os principais causadores  da proliferação do animal na região.
"É uma inverdade quando dizem que estes animais marinhos atacam as pessoas . As ocorrências não podem ser chamadas  de ataque porque as águas-vivas são carregadas pela maré e liberam o seu veneno apenas quando se sentem ameaçadas por predadores" , afirma o especialista.
Embora existam mais de mil espécies de águas-vivas espalhadas pelo mundo, quatro delas têm aparecido com mais relevância nos relatos de acidentes  com seres humanos no Brasil: Tamoya haplonema e Chiropsalmus quadrumanus  e as caravelas Physalia physalis e Olinda sambaquiensis. Segundo o biólogo,a água-viva e a caravela -portuguesa (ou garrafa azul, como é conhecida) , encontradas na costa brasileira, são pouco perigosas e, até hoje, não existem relatos de contatos fatais entre esses animais e os seres humanos. Estas espécies possuem tentáculos responsáveis pela produção do cisto, substãncia  que, se colocada em contato com o homem, libera uma substãncia urticante que causa irritação, inchaço e vermelhidão na pele.
As águas -vivas e as caravelas pertencem ao filo dos cnidários, o mesmo das medusas. Felizmente, as existentes no Brasil não estão entre as espécies que podem levar à morte. as que causam acidentes letais são as medusas  (conhecidas popularmente como águas-vivas), Chironex sp e Chiropsalmus spp e as caravelas Physalia spp. Estatísticas mostram que já ocorreram cerca de 150 mortes provocadas por águas-vivas no mundo, a grande maioria pela espécie  Chironex fleckeri, da Austrália.
Domenichelli ressalta que todas as espécies possuem veneno, algumas com ação mais forte- o veneno de algumas espécies da Austrália pode matar em poucos minutos. O veneno dos cnidários está localizado nos cnidas, que possuem uma estrutura semelhante a um arpão que injeta  diversas toxinas na vítima, podendo causar problemas neurológicos, cardiológicos e cutâneos. Além disso, a ação do veneno pode causar efeitos alérgicos , e até mesmo a morte. No entanto, as propriedades peçonhentas de um cnidário dependem não somente da composição química do veneno, mas também da quantidade de nematocistos descarregados e da sua capacidade de penetrar na pele da vítima. Vale ressaltar que as quiemaduras por águas-vivas constituem um mecanismo de defesa poderoso: queimam pelo contato para se livrar de ameaças e predadores.
A explicação para a invasão de águas-vivas na costa brasileira e em outras regiões ao redor do mundo parece residir nos impactos ambientais verificados nos mares atualmente. Atividades humanas danosas, como a sobrepesca e da eutrofização (processo de poluição de corpos d'água) diminuíram drasticamente populações dos grandes predadores de águas-vivas como a anchova, as tartarugas marinhas e a foca monge. Ao mesmo tempo, essas atividades prejudiciais dizimaram severamente as populações de peixes que se alimentam de plâncton, que, por conseqüencia, se proliferou. 
A aparência de geléia transparente desse animal se deve ao fato de 95% do seu organismo serem compostos por água, o que justifica o nome de" água-viva".

Fonte: Revista Conhecimento Prático  Geografia, Editora Escala Educacional, São Paulo (abril de 2010) 

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