segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Onça-Pintada: Um Símbolo Ameaçado

 Depois do mico-leão dourado, do panda, da baleia, chegou a vez da onça-pintada. Maior felino das Américas e rainha das florestas brasileiras, a onça-pintada se tornou símbolo de campanhas pela preservação da biodiversidade. Ela consta como "vulnerável" na lista de animais ameaçados de extinção do Ministério do Meio Ambiente. Mas na Caatinga e na Mata Atlântica está à beira da extinção. No Pantanal, a onça é vítima de caçadores e da expansão das pastagens. Só na Amazônia a população é razoável, mas pouco estudada. Aliás, a onça-pintada, um animal naturalmente esquivo e misterioso, ainda tem muitos de seus hábitos desconhecidos. Sem medidas emergenciais, a espécie poderia desaparecer de todo o país - à exceção da Amazônia - nos próximos 100 anos.
O estado crítico da onça-pintada mobilizou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que lançará, ainda este ano, um livro com mais de 200 ações de socorro à espécie, entre medidas de curto e longo prazo. As propostas foram esboçadas desde o fim do ano passado, quando o animal foi tema de um workshop em Atibaia, em São Paulo. A cidade sedia o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), órgão do ICMBio responsável pelo estudo de grandes felinos brasileiros.
Salvar a onça-pintada custará R$ 12 milhões, entre o investimento em pesquisas, criação de novas unidades de conservação e educação ambiental. Outra medida cobrada pelo Cenap é o reconhecimento, em até três anos, do animal como símbolo da conservação da biodiversidade brasileira.
Até agora, porém, a espécie está em risco. Estima-se que restem menos de 13 mil onças-pintadas no país - a conta não inclui o Pantanal. Os pesquisadores são cautelosos ao analisar esta contagem, considerando as dificuldades em estudar um animal que percorre áreas tão grandes e embrenha-se na mata virgem da Amazônia. De certo se sabe mesmo que a onça, de predadora temida, tornou-se caça, perseguida por fazendeiros.
"As pesquisas mais recentes mostram que, no Pantanal e na Amazônia, a situação da espécie não é favorável como se imaginava"  alerta Rogério Cunha de Paula, chefe-substituto do Cenap. "Sem esses biomas, portanto, a onça-pintada ocuparia um estágio ainda pior do que vulnerável. Se não agirmos, vamos seguir o caminho de Uruguai e Argentina, onde este animal já desapareceu.
Um dos maiores problemas da onça-pintada é a falta de um lugar para chamar de seu. Mais da metade (54%) das áreas de habitat desses felinos não existe mais. O desmatamento pode fazer com que a espécie desapareça, em até cinco anos, de algumas regiões. Segundo os pesquisadores, uma maneira de garantir a sobrevivência das pequenas populações do animal, cada vez mais isoladas pela expansão de centros urbanos e outras atividades econômicas, seria interligar as unidades de conservação. O Cenap dedica-se há três anos à construção do Corredor da Onça, uma estrutura que cumpriria este papel na Caatinga.
- É um projeto que precisa ser negociado cuidadosamente, porque a proteção da onça-pintada não pode restringir o desenvolvimento da população humana que vive entre as unidades de conservação - pondera Rogério Cunha de Paula, do Cenap. "Precisamos do apoio de outros ministérios. Com o projeto, teremos garantida a conservação do felino em uma área de 133 mil de km², que abrange quatro parques nacionais, além de outro ainda em desenvolvimento.
O escudo para a onça seria mais do que bem-vindo. Das 17 unidades de conservação existentes na Caatinga, apenas três têm manejo apropriado para proteger espécies ameaçadas. Nas outras, portanto, o animal está em risco. A consequência imediata é a fragmentação das populações, o que a expõe ainda mais à caça. Na região de Bom Jesus da Lapa (BA), por exemplo, sobraram apenas três felinos.
O Cerrado tampouco é seguro. Neste bioma, a população de onças-pintadas caiu pela metade em apenas 25 anos - sobraram 949, de acordo com o Cenap. Em poucas décadas, 2 milhões de km² desta região (uma área quatro vezes maior do que a Espanha) foram adaptados à agropecuária. Uma baixa significativa para os felinos e suas presas.
As pastagens já chegaram ao extremo sul e ao leste da Amazônia, onde o número de onças-pintadas é uma incógnita. Como toda a floresta ainda de pé serve de habitat para a espécie, estima-se que mais de 10 mil indivíduos adultos vivam por lá. Mas o relatório da Cenap faz um alerta: se o cenário de degradação ambiental continuar, os felinos ficarão praticamente restritos à área ocupada por cinco unidades de conservação. Neste cenário pessimista, a população de onças-pintadas poderia cair para menos de 3 mil indivíduos.
A Amazônia é uma incógnita - define Ricardo Boulhosa, coordenador-executivo do Instituto Pró-Carnívoros, ONG que participa, com o Cenap, de levantamentos relacionados às onças. "Ainda não sabemos os territórios em que vive a espécie, nem a sua densidade. Estamos preocupados com o Arco do Desmatamento, como é chamada a borda da floresta, uma área muito conflituosa. Ainda sabemos pouco sobre as onças, mas é muito provável que sua situação nunca tenha sido tão arriscada."
No Pantanal, as onças, não raro, são recebidas a tiros. Em pesquisas realizadas ao longo da década, fazendeiros e peões afirmaram que o número de felinos teria aumentado. No embalo dessa impressão popular (e com a revolta aos ataques dos predadores a animais domésticos), jornais locais sugeriram que os animais fossem caçados.
O suposto aumento populacional não tem comprovação científica - ressalta Sandra Cavalcanti, que coordenou estudos com onças-pintadas do Pantanal para o Instituto Pró-Carnívoros. - Naquele bioma, as grandes propriedades têm sido divididas entre membros da mesma família. Áreas antes remotas, onde não era possível chegar de carro, estão sendo mais exploradas. Hoje, porém, há mais contato do homem com estes animais. Isso pode explicar a crença de que existem mais felinos por ali.
Não há estimativas sobre a quantidade de onças-pintadas em todo o Pantanal. Na área de estudos de Sandra, há, em média, seis delas a cada 100 quilômetros quadrados. Além de monitorá-las, a pesquisadora lidava com julgamentos praticamente imutáveis sobre os felinos.
"Uma questão fortemente arraigada na cultura pantaneira é dar status para quem caça onças" lamenta. "E ainda temos de nos preocupar com a caça comercial e a esportiva, claramente proibidas e feitas às escondidas. "
A matança clandestina de onças-pintadas atrai até estrangeiros. No início do mês, o Ibama e a Polícia Federal desmantelaram uma quadrilha que organizava safáris clandestinos no Pantanal. O abate a um indivíduo da espécie custava até US$ 1.500. O número de animais mortos pelo grupo e seus clientes ainda é desconhecido.

Mata Atlântica é campo minado para o felino

A Mata Atlântica não traz qualquer expectativa para os felinos que ainda a habitam. Este é o mais isolado dos grandes biomas e o que sofre maior pressão dos centros urbanos. A perda de habitat é tamanha que não há mais de 170 onças-pintadas adultas em toda a Mata Atlântica.
"Se não promovermos conexões dos locais onde há mais onças para aqueles em que sobraram poucas, há grande chance de acelerarmos o desaparecimento da espécie." alerta Rogério Cunha de Paula, do Cenap.  "A Mata Atlântica está isolada, por isso sua situação é bem pior do que a observada nos outros biomas.
A ocupação humana, as queimadas e algumas atividades econômicas produziram efeitos irreversíveis na Mata Atlântica. Apenas 20,4% deste bioma seriam adequados hoje para servir de habitat a uma onça-pintada. É um índice bem menor do que o registrado na Amazônia (84,9%) ou no Cerrado (40,7%), por exemplo.
Uma das regiões mais emblemáticas do bioma é o Alto Paraná, onde a população de felinos caiu 90% em 15 anos. As várzeas do Rio Paraná, habitat mais propício para as onças-pintadas por lá, estão dando lugar a usinas hidrelétricas. Já são 26 represas, com reservatórios de mais de 100 quilômetros quadrados cada.
O Cenap, junto à ONG americana Panthera e ao Instituto Pró-Carnívoros, desenvolveu um software para calcular a longevidade das diversas populações de onças-pintadas do Brasil. Para estimar as chances de sobrevivência da onça, considerou fatores como o número de filhotes, a quantidade de animais caçados e o índice de atropelamentos.
O estudo qualificou como urgentes as áreas que, se não receberem operações substanciais, podem perder suas onças em cinco anos. Uma delas vai da Costa Verde fluminense ao norte de Santa Catarina.
"Essas simulações facilitam a tomada de algumas medidas - explica Ricardo Boulhosa, coordenador-executivo do Instituto Pró-Carnívoros. "Se constatarmos, por exemplo, que atropelamentos são frequentes, podemos reivindicar maior sinalização nas estradas".
Outra alternativa, segundo Rogério, seria a construção de passagens subterrâneas sob rodovias, solução já adotada nos EUA.
"É uma forma de interferirmos na vegetação natural e em estruturas já existentes sem trazer risco aos animais"  ressalta. "Precisamos lembrar que as medidas discutidas têm a vantagem de não proteger unicamente as onças-pintadas, e sim todo o meio em que ela está inserida".

Por Rogério Grandelle para o caderno Planeta Terra do jornal O Globo (agosto 2010)





sábado, 28 de agosto de 2010

Córneas Biossintéticas

A córnea artificial, fabricada a partir de DNA de colágeno humano, e seu posicionamento para o implante (imagem: reprodução/ Science Translational Medicine).

Depois da catarata, lesões e doenças que atingem a córnea são a segunda maior causa de cegueira no mundo. Por mais de um século, a solução para remediar esse mal tem sido o transplante da córnea de doadores humanos. A demanda, porém, é muito maior que a oferta. Dos 10 milhões de pacientes que permanecem na fila de espera, cerca de 1,5 milhão viram novos casos de cegueira a cada ano.
Mas um trabalho publicado esta semana por cientistas suecos e canadenses na Science Translational Medicine pode pôr fim a esse cenário sombrio. O artigo apresenta os resultados bem-sucedidos de testes clínicos para implantar córneas biossintéticas em 10 pacientes com lesões graves na membrana, induzindo a sua regeneração.
"O estudo é o primeiro a mostrar que uma córnea artificialmente fabricada pode se integrar ao olho humano e estimular a regeneração.” Os voluntários, todos suecos, foram submetidos a cirurgias para remover a membrana danificada de um olho e substituí-la pela versão sintética.
Ao longo dos dois anos seguintes, os médicos acompanharam o progresso e verificaram que os implantes foram incorporados pelo organismo, com a regeneração de células epiteliais e nervos da córnea em torno da membrana artificial.
A sensibilidade dos olhos foi gradualmente restituída, assim como a capacidade de produzir lágrimas, essencial para lubrificar e assim oxigenar a córnea – que não é irrigada por sangue para preservar sua transparência.
A córnea é uma camada de colágeno e células que age como uma janela para o globo ocular. É o principal elemento refrativo do aparelho visual, ajudando a ajustar o foco, e precisa ser completamente transparente para permitir a entrada de luz. Diversos males podem prejudicar essa função, como o tracoma – a principal origem infecciosa de cegueira, causada por uma bactéria –, úlceras e traumatismos.
Na pesquisa, nove dos pacientes tinham ceratocone avançado (uma doença que modifica o formato da córnea) e um tinha uma infecção na membrana. Em seis deles, a visão a olho nu melhorou após a cirurgia.
Para os demais, o uso de lentes de contato fez o que faltava: permitiu que vissem tão bem quanto pacientes que haviam sido submetidos a transplante de córnea humana, também com lentes. E mais: antes da cirurgia, nenhum deles podia usar lentes de contato, apresentando intolerância para o uso prolongado.
O ingrediente-chave para o sucesso da pesquisa foi o desenvolvimento de uma córnea artificial usando colágeno humano recombinante – sintetizado em laboratório a partir de DNA humano. “Células de levedura foram manipuladas geneticamente para conter o DNA do colágeno”, explicou May Griffith à CH On-line.
De acordo com a pesquisa, nenhum dos pacientes apresentou rejeição ao material, e em nenhum dos casos foi preciso suprimir a resposta imunológica dos indivíduos (técnica que pode ser usada em transplantes para evitar que o sistema imune do corpo rejeite o novo tecido implantado).
Além disso, o uso de córneas biossintéticas não traz o risco de transmissão de doenças que existe quando se usa o tecido de um doador. A prevenção desse risco, aliás, é uma das etapas que mais encarece o transplante, explica Griffith.
De acordo com a pesquisadora, o custo de córneas humanas de doadores é estimado em US$ 2 mil cada. “Isso é devido ao rastreamento necessário em cada doador para assegurar que não haverá transmissão de doenças para os receptores. No futuro, com córneas feitas por humanos, a fabricação poderia feita em grande escala e os custos seriam menores”.
Griffith e sua equipe começaram a desenvolver córneas biossintéticas há mais de dez anos. Só depois de muitos testes em laboratório, e alguns em animais, é que foi dado o passo de testar o material em pessoas.
Para Griffith, os resultados são “muito animadores” e indicam que as pesquisas em medicina regenerativa são um caminho certo para tratar problemas na córnea. “Agora temos que testar as córneas biossintéticas em um maior número de pacientes, aplicadas a um espectro mais amplo de condições que exigem o transplante”, explica.
Na próxima fase, os testes serão feitos com a versão aprimorada da córnea artificial. “Com esse material mais forte e as lições aprendidas da primeira fase, esperamos aprimorar ainda mais a visão dos próximos pacientes que receberem os implantes”, diz.

 Por Júlia Dias Carneiro  para a  Ciência Hoje On-line em 26/08/2010

* Saiba mais sobre transplantes no Biorritmo:
Hepatite prejudica transplantes de córnea no Brasil (05/08/2010)
Transplantes e doação de órgãos (21/01/2010)
Seja um doador de medula óssea (26/04/2009)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Níveis de Biossegurança

Nos laboratórios, os profissionais estão expostos a diversos riscos biológicos. O símbolo abaixo identifica os materiais que oferecem risco biológico. Existem 4 níveis de biossegurança.

A biossegurança no Brasil está formatada legalmente para os processos envolvendo organismos geneticamente modificados (OGM) e questões relativas a pesquisas científicas com células-tronco embrionárias, de acordo com a Lei de Biossegurança - N.11.105 de 24 de Março de 2005.
O foco de atenção dessa Lei são os riscos relativos as técnicas de manipulação de organismos geneticamente modificados. O órgão regulador dessa Lei é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), integrada por profissionais de diversos ministérios e indústrias biotecnológicas. Exemplo típico de discussão legal da biossegurança são os alimentos transgênicos, produtos da engenharia genética.
Por outro lado, a palavra biossegurança, também aparece em ambientes onde a moderna biotecnologia não está presente, como, indústrias, hospitais, laboratórios de saúde pública, laboratórios de análises clínicas, hemocentros, universidades, etc., no sentido da prevenção dos riscos gerados pelos agentes químicos, físicos e ergonômicos, envolvidos em processos onde o risco biológico se faz presente ou não. Esta é a vertente da biossegurança, que na realidade, confunde-se com a engenharia de segurança, a medicina do trabalho, a saúde do trabalhador, a higiene industrial, a engenharia clínica e a infecção hospitalar.
 
Os Níveis de Risco Biológico

Existem quatro níveis de biossegurança: NB-1, NB-2, NB-3 e NB-4, crescentes no maior grau de contenção e complexidade do nível de proteção.
O nivel de biossegurança de um experimento será determinado segundo o organismo de maior classe de risco envolvido no experimento.
Quando não se conhece o potencial patogênico do OGM resultante, deverá ser procedida uma análise detalhada e criteriosa de todas as condições experimentais.

(a) NÍVEL DE BIOSSEGURANÇA 1 - NB-1: É adequado ao trabalho que envolva agente com o menor grau de risco para o pessoal do laboratório e para o meio ambiente. O laboratório, neste caso, não est*Eseparado das demais dependências do edifício. O trabalho é conduzido, em geral, em bancada. Os equipamentos de contenção específicos não são exigidos. O pessoal de laboratório deverá ter treinamento específico nos procedimentos realizados no laboratório e deverão ser supervisionados por cientista com treinamento em Microbiologia ou ciência correlata.
O organismo receptor ou parental classificado como classe de risco 1 deve ser manipulado nas condições especificadas para o Nível de Biossegurança 1.
(b) NÍVEL DE BIOSSEGURANÇA 2 - NB-2: É semelhante ao NB-1 e é adequado ao trabalho que envolva agentes de risco moderado para as pessoas e para o meio ambiente.
Difere do NB-1 nos seguintes aspectos: (1) O pessoal de laboratório deve ter treinamento técnico específico no manejo de agentes patogênicos e devem ser supervisionados por cientistas competentes; (2) O acesso ao laboratório deve ser limitado durante os procedimentos operacionais; (3) Determinados procedimentos nos quais exista possibilidade de formação de aerossóis infecciosos devem ser conduzidos em cabines de segurança biológica ou outro equipamento de contenção física.
Todo OGM classificado no Grupo II e originado a partir de receptor ou parental classificado na classe 2 deve obedecer aos parâmetros estabelecidos para o NB-2.
(C) NÍVEL DE BIOSSEGURANÇA 3 - NB-3: É aplicável aos locais onde forem desenvolvidos trabalhos com OGM resultantes de agentes infecciosos Classe 3, que possam causar doenças sérias e potencialmente letais, como resultado de exposição por inalação.
O pessoal do laboratório deve ter treinamento específico no manejo de agentes patogênicos e potencialmente letais, devendo ser supervisionados por cientistas com vasta experiência com esses agentes.
Todos os procedimentos que envolverem a manipulação de material infeccioso devem ser conduzidos dentro de cabines de segurança biológica ou outro dispositivo de contenção física. Os manipuladores devem usar roupas de proteção individual.
O laboratório deverá ter instalações compatíveis para o NB-3.
Para alguns casos, quando não existirem as condições específicas para o NB-3, particularmente em instalações laboratoriais sem área de acesso específica, ambientes selados ou fluxo de ar unidirecional, as atividades de rotina e operações repetitivas podem ser realizadas em laboratório com instalações NB-2, acrescidas das práticas recomendadas para NB-3 e o uso de equipamentos de contenção para NB-3.
Cabe ao Pesquisador Principal a decisão de implementar essas modificações, comunicando-as a CIBio e CTNBio.
(d) NÍVEL DE BIOSSEGURANÇA 4 - NB-4: este nível de contenção deve ser usado sempre que o trabalho envolver OGM resultante de organismo receptor ou parental classificado como classe de risco 4 ou sempre que envolver organismo receptor, parental ou doador com potencial patogênico desconhecido
Trabalhos envolvendo OGM em laboratório ou linha de produção usando volumes superiores a 10 litros devem ter supervisão e medidas de confinamento adicionais.
Devem ser considerados, também, os riscos relacionados com o cultivo de organismos em grande escala (p. ex. toxicidade de produtos, aspectos físicos, mecânicos e químicos de processamento do OGM ).
A instituição deve manter um programa de monitoramento da saúde das pessoas que trabalham com OGM em grande escala, incluindo exame físico e médico periódico, manutenção e análise de amostras de soro para monitoramento de eventuais modificações que possam resultar da situação de trabalho.
Qualquer doença incomum ou prolongada dos trabalhadores deve ser investigada para determinar possível origem ocupacional.
Os três níveis de biossegurança para atividades em grande escala são: NBGE-1, NBGE-2 e NBGE-3.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Caminhos e Descaminhos da Ciência Brasileira

Apesar de dificuldades históricas que ainda permanecem, houve um avanço considerável na produção científica brasileira nas últimas duas décadas

No curto intervalo de duas décadas, entre 1981 e 2000, o Brasil passou da 28ª para 17ª posição no ranking mundial de produção de ciência. Os dados, relativos à elaboração de artigos científicos, são do Institute for Scientific Information (ISI), entidade de reconhecido prestígio em bibliometria.
Nesta posição, o Brasil está à frente da Bélgica, Escócia e Israel, entre outros, e bem próximo da Coréia do Sul, Suíça, Suécia, Índia e Holanda.
O avanço da pesquisa científica brasileira, apesar de dificuldades históricas que ainda permanecem, resulta de iniciativas tomadas há meio século, especialmente com a constituição do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), principal agência nacional de fomento.
Nos anos 60, além da criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também foram implantados vários cursos de pós-graduação destinados à formação de novos pesquisadores. Desde então, novas agências estaduais de apoio à pesquisa foram instaladas e fortalecidas. E, em meados dos anos 80, a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia enfatizou a política científica e definiu áreas estratégicas para investimento e apoio.
Entre as dificuldades que ainda emperram o desenvolvimento da ciência no Brasil estão a concentração das investigações em universidades e institutos públicos, com uma contrapartida pouco significativa da iniciativa privada, além do fluxo irregular de recursos financeiros.
Os cenários mais recentes, no entanto, acenam com perspectivas promissoras em relação a estas limitações. Empresas privadas estão se dando conta de novas perspectivas de negócios envolvendo pesquisa, desenvolvimento e aplicação. Do lado dos financiamentos públicos, os fundos setoriais – percentual de recursos obtidos com atividades como exploração de petróleo e energia elétrica, entre outros – devem ampliar sensivelmente os financiamentos destinados à pesquisa científica.
Por incrível que pareça, um novo desafio do Brasil é incorporar sua grande quantidade de doutores no mercado de trabalho. Um expediente usado até agora vem sendo a concessão de bolsas de pesquisa. Mas essa é uma situação improvisada que não pode continuar. As universidade públicas dispõem de cerca de 6 mil vagas, das quais apenas 2 mil deverão ser preenchidas no curto prazo. O país precisa dessa mão-de-obra altamente qualificada. Para que ela tenha um horizonte profissional é necessária maior audácia da iniciativa privada.
O Fundo Verde Amarelo vai financiar a formação de recursos humanos, área em que o Brasil vem tendo progresso significativo. Os dados relativos a 2002 estimam em 110 mil o contingente de estudantes em cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado). Ao longo do ano 2000, segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), foram formados 5.344 novos doutores. Em 2001, este número subiu para 6.300. Os mestres, que foram 18.374 em 2000, superaram os 20 mil no ano passado.
Astronomia, biotecnologia, física, medicina e pesquisa agrícola são alguns dos segmentos com desenvolvimento acelerado, projetando o país no cenário internacional. No entanto, outras áreas, como a matemática, de que parte destas pesquisas dependem, ainda não dispõem da quantidade desejável de pesquisadores.
Enquanto comemora conquistas recentes em genômica e ingressa no novíssimo campo da proteômica, o Brasil faz planos para desenvolver, rapidamente, também o segmento da nanotecnologia.
Existe uma demanda não atendida de ensino superior no Brasil, mas esta situação vem mudando. Em 1981, perto de 1,4 milhão de estudantes estavam matriculados nas redes pública e privada de ensino superior. Em 1994, este número subiu para 1,7 milhão e, em 1999, passou para 2,4 milhões. Apenas entre 1994 e 1999, houve um crescimento de 58,1% nos números do ensino privado. O cenário atual prevê um ligeiro e crescente aumento de pesquisas na rede privada, com a incorporação de doutores aposentados precocemente do setor público.

da Revista Scientific American Brasil - Edição 100 (setembro 2010)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Você Sabe O Que É Um Ligre?


Hércules, um ligre (híbrido de leão e tigre) que consta no Livro dos Recordes, pois mede  3,65 m e pesa 408 kg

O ligre é o resultado do cruzamento entre um leão macho e uma tigresa. O animal quando adulto fica ainda maior que seus pais. “Os genes que inibem o crescimento são herança materna nos leões e paterna, nos tigres. Por causa disto, os ligres não têm este inibidor de crescimento”, disse Roberto Vilela, biólogo do setor de mamíferos do Zoológico de São Paulo. Quando o cruzamento é feito entre tigres machos e leoas, gerando os chamados “tigreões”, não ocorre este tipo de problema.
O cruzamento de leões e tigres não acontece fora de cativeiro, pois os animais não convivem na natureza. Segundo Vilela, muitos países proíbem este tipo de cruzamento por questões éticas. No Brasil, a legislação também não permite a produção de híbridos entre espécies nativas. Geralmente os ligres são estéreis, principalmente os machos.
Filhotes de ligres nascidos este mês em um zoológico de Taiwan 
Dois filhotes de ligre, híbrido de leão e tigre, nasceram neste domingo (15) no zoológico The World Snake King Education Farm, em Tainan, Taiwan. A fazenda é a primeira no país a conseguir o cruzamento das duas espécies. O proprietário do zoológico, no entanto, terá de pagar multa por violação das regras da vida selvagem, mesmo sob argumentação de que os animais dividiam a mesma jaula há três anos e que até então a tigresa nunca havia emprenhado. Três filhotes nasceram no domingo, mas um deles morreu logo após o parto.
De acordo com o site do jornal inglês Telegraph, existem apenas 10 espécimes de ligres vivos no mundo. Um dos mais conhecidos é Hercules, ligre reconhecido pelo Guiness Book como o maior do mundo, com 3,65 metros e pesando 408 kg.´

Do Portal iG  em17/08/2010

sábado, 21 de agosto de 2010

Mais Uma Dose de Conhecimento Sobre o Alcoolismo

O alcoolismo responde por 4% dos problemas da saúde mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Fatores ambientais, culturais e psicológicos certamente têm papel importante para desencadear o transtorno, mas pesquisas indicam que ele tem também um forte componente genético.  Cientistas da Universidade da Califórnia (EUA) defendem a  tese de que uma mutação genética identificada em camundongos hipersensíveis ao álcool pode estar ligada à propensão ao consumo da substância. A descoberta pode oferecer uma pista para entender as complexas raízes genéticas do alcoolismo.
O líder da pesquisa David Speca e a sua equipe citam como exemplo estudos feitos com gêmeos, filhos adotivos e famílias que demonstram o fator genético por trás do alcoolismo. Mas destacam a dificuldade de se identificar fatores de suscetibilidade, sendo muito provável que múltiplos genes de pequeno efeito contribuam para a doença.
Na verdade, a  mutação foi descoberta por acaso.Os pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) buscavam mesmo eram sinais de hiperatividade em animais. Depois de induzir milhares de mutações aleatórias em camundongos, descobriram um provável gene pelo qual essa característica era transmitida de uma geração para outra.
Descobriram mais: em estudos anteriores, a mutação do gene em questão havia sido associada a uma hipersensibilidade para álcool e anestésicos em vermes da espécie Caenorhabditis elegansum conhecido animal modelo para estudos genéticos. Foi a deixa para verificar como o álcool agiria sobre os camundongos.
Ao receberem injeções de álcool no estômago, os indivíduos mutantes revelaram uma hipersensibilidade aguda à substância. Ficaram sedados por mais tempo que os demais.
Quando tiveram a opção de beber álcool ou água, também optaram pelo primeiro com maior frequência que os outros.
“Os camundongos mutantes voluntariamente consumiram mais álcool do que os normais”, contou o líder da pesquisa, David Speca, à CH On-line.
“Esses são testes iniciais comuns usados por pesquisadores para medir a propensão ao consumo do álcool. Mas muitos outros testes terão que ser realizados para mostrar que este é um gene que traz suscetibilidade para o alcoolismo”, esclarece ele, pesquisador do Departamento de Neurologia e da Clínica e Centro de Pesquisa Ernest Gallo, da Universidade da Califórnia em São Francisco.
No estudo, publicado este mês na PLoS Genetics, a mutação foi batizada de Lightweight – termo inglês que designa tanto a categoria ‘peso leve’, de lutas como o boxe, quanto a intolerância de certos indivíduos ao álcool.
A mutação descoberta pela equipe poderia ser um dos fatores nessa intrincada equação. “Os camundongos ‘peso leve’ podem proporcionar um novo vislumbre no mecanismo de ação do álcool, e estudos desse gene em humanos podem levar a um melhor entendimento do alcoolismo e seu tratamento”, afirma o artigo.
Segundo Speca, o gene em questão – o unc-79, como é chamada a sua versão no Caenorhabditis elegans – nunca foi estudado nos humanos. Nesses vermes, a hipersensibilidade a álcool e anestésicos foi observada com mutações também em um segundo gene, o unc-80.
Além disso, pesquisas anteriores indicaram que a proteína expressa pelo unc-79 – cuja função é pouco conhecida – poderia interagir com um canal iônico (NALCN) de modo a influenciar as respostas neurológicas ao álcool. A hipótese ainda depende de mais estudos para ser comprovada, mas tal fenômeno “poderia ser conservado de vermes para camundongos para humanos”.
O estudo sugere que esses três fatores funcionam em um mesmo caminho bioquímico. “Esperamos que isso leve outros pesquisadores a analisarem os genes unc-79, unc-80 e NALCN em outros organismos, como candidatos em potencial na relação com transtornos associados a álcool”, diz Speca.
“Considerando-se que vemos reações alteradas a anestésicos e álcool em vermes, drosófilas e camundongos, não seria de se estranhar que o mesmo também ocorresse em humanos.”

Adaptado do artigo de Júlia Dias Carneiro para Ciência Hoje On-line

*Saiba mais sobre Alcoolismo no Biorritmo:
Álcool causa uma em cada 25 mortes no mundo (30/06/2009)
Bafômetro: teu hálito te condena (08/08/2009)
Alcoolismo afeta mais as mulheres (16/06/2010) 

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Por Uma Humanidade Sem Raças

O livro do geneticista Sérgio Pena da UFMG possui argumentos contundentes que contribuem para a desracialização da humanidade

O geneticista Sergio Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é uma referência nacional na discussão da questão racial. Ele tem vindo a público com freqüência para mostrar como a visão da humanidade dividida em raças, cristalizada em parte da sociedade, é totalmente incompatível com as descobertas recentes da genética. O seu livro Humanidade sem raças?, lançado em 2008, é um verdadeiro manifesto contra o racismo,  pois reúne os veementes argumentos do geneticista para combater a racialização da humanidade. Essa discussão não é novidade para os leitores de “Deriva Genética”, a coluna que o autor publica na segunda sexta-feira do mês na CH On-line – a denúncia da inexistência das raças do ponto de vista biológico é um tema recorrente em seus textos.
A novidade de Humanidade sem raças? é reunir os argumentos de Pena e sistematizá-los em um discurso coeso, além de trazer novas considerações e discussões detalhadas de vários exemplos históricos. O livro consolida o pensamento sobre a questão racial que o geneticista vem amadurecendo ao longo de anos, em suas colunas, artigos na imprensa e palestras pelo país afora.

Genealogia do racismo

Para levar a cabo seu raciocínio, Pena propõe retraçar uma genealogia do racismo – conceito que, assim como a própria noção de “raça” é uma construção humana relativamente recente. A divisão da humanidade em raças, explica ele, remonta ao início do século 18 – o naturalista sueco Carl Linnaeus I(1707-1778) foi o primeiro a propor tal classificação formal. Essa visão deu origem ao racismo científico no século 19, em que alguns cientistas condenaram a mistura das raças, o que culminou com a nefasta experiência da eugenia nazista no século 20.
Ao final da Segunda Guerra, continua o autor, surgiu um novo modelo, que propunha dividir a humanidade em populações. Embora partisse de premissas menos condenáveis, ele acabou perpetuando a ideologia do racismo ao se converter em um modelo “populacional de raças”. O problema persistia.
Pena propõe uma mudança de paradigma que permita superar essa visão, socialmente perniciosa e biologicamente equivocada. O autor é muito feliz ao mostrar como a única divisão da humanidade que a genética permite embasar é em seis bilhões de indivíduos. Ou “cada homem é uma raça”, como bem resumiu o escritor moçambicano Mia Couto, que Pena gosta de citar.

Sociedade desracializada

Lembrando a seu leitor que não há “natureza humana” fixa e preestabelecida, o geneticista convida-o a juntar-se a ele na luta pelo fim do racismo. “Devemos fazer todo esforço possível para construir uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada e na qual exista a liberdade de assumir, por escolha individual, uma pluralidade de identidades”, conclama.
Humanidade sem raças? é um livro breve, com 63 páginas de texto, que pode ser lido de uma só sentada. É uma leitura contundente, que assume ares de dever cívico nas circunstâncias atuais.


Humanidade sem raças?  Sergio D. J. Pena. São Paulo, 2008, Publifolha  72 páginas

Saiba mais sobre racismo no Biorritmo:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Mundo Microscópico em 3D

Imagens observadas em microscópio podem ser vista em 3D. Pesquisadores espanhóis reproduziram imagens de bactérias e ácaros

Pesquisadores espanhóis reproduziram em 3D imagens de bactérias, piolhos e ácaros. Bactérias na ponta de uma agulha, um piolho escondido nos cabelos ou um ácaro sobre a cabeça de uma formiga são exemplos do mundo microscópico que, a partir de agora, poderão ser conferidos em 3 dimensões. Trata-se um inovador projeto espanhol apresentado nesta quinta-feira (12/08) em Madri. Pesquisadores criaram as imagens em 3D a partir de observações realizadas em microscópio.Com elas, é possível ver detalhes que através do antigo aparelho não seria possível.
Para assistir ao vídeo que mostra brevemente como ficaram as imagens microscópicas em 3D, acesse o Úlltimo Segundo Ciência do Portal iG clicando aqui

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A Osteoporose Marinha

A osteoporose marinha e o branqueamento dos corais são dois fenômenos decorrentes do aumento da poluição no ambiente marinho

Tão preocupante quanto os derramamentos de óleo nos mares, o fenômeno da acidificação dos oceanos também tem ganhado espaço nas páginas dos jornais recentemente. A acidificação dos mares é causada, basicamente, pela resultante de um aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) ambiental nas águas marinhas. O CO2 que dissolve no oceano reage com a água e libera hidrogênio ácido e bicarbonato, que vai aumentar a a cidez do oceano. Isso resulta numa osteoporose marinha , ou seja, vai dissolvendo o esqueleto carbonato, virando tudo bicarbonato.
Com o aumento do CO2 a temperatura do mar tende a aumentar e caminha-se assim, também para uma desertificação dos recifes de corais. Se o problema do fundo do mar não é capaz de afetar os humanos, um dado estatístico pode fazer pensar: hoje há cerca de meio bilhão de pessoas no mundo que desenvolvem atividades econômicas relacionadas com recifes de corais. A importância dos recifes de corais para a vida marinha é muito grande. Permite, por exemplo, uma quantidade maior de espécies (biodiversidade) no fundo do mar.
No Brasil está acontecendo um branqueamento destes recifes de corais, desde o Rio Grande do Norte até a Ilha Grande, no banco de Abrolhos, aqui no Rio de Janeiro. Na verdade, os corais branquearam, não morreram. isso acontece porque as algas que vivem dentro do coral começam a produzir derivados de oxigênio quando a temperatura do mar aumenta. Estes derivados são tóxicos. É como se fossem água oxigenada (peróxido de oxigênio). Os corais começam, então, a expelir essas algas para fora e perdem a cor.
Atualmente, a osteoporose marinha está muito acelerada, com reflexo na produtividade. Isso leva à dissolução das placas e pode contribuir para um aumento da temperatura da água superficial.  Segundo os estudiosos do tema, se continuarmos emitindo gás carbônico como fazemos hoje (os oceanos absorvem 30% de toda a quantidade), os mares vão ficar cada vez mais ácidos, com reflexo direto na vida marinha.
Outros dois fatores que também levam os oceanos ao estresse são mais fáceis de entender e exigem muito pouco de nós: lixo em demasia nos oceanos e pesca predatória. O oceanógrafo David Zee lembra que, na ocasião do acidente com o boeing da Air France, em maio do ano passado, mergulhadores ficaram impressionados com a quantidade de lixo encontrado nas águas profundas.
A recomendação internacional para se tentar salvar os oceanos é que se evite poluição química, orgânica, que se diminua a taxa de sedimento e que se recuperem as matas ciliares. Em regiões turísticas, é preciso evitar que as pessoas depredem os recifes. Só fazendo isso é que vamos ter esperança de que os recifes não morram.

Saibam mais sobre pesca predatória nos oceanos aqui no Biorritmo lendo a postagem O Mar Não Está Mais Pra Peixe (02/06/2010)

sábado, 14 de agosto de 2010

Eu, Professor-Robô?

Acima, C3P0, o famoso personagem de 'Guerra nas estrelas' que fala milhares de línguas. Segundo reportagem de jornal norte-americano, o ensino de idiomas seria uma das funções dos robôs em sala de aula (foto: CC BY-NC 2.0 / Wikimedia commons).

Uma matéria publicada no jornal norte-americano New York Times (NYT) promete causar muita polêmica. A notícia: robôs são testados para serem professores em escolas. O NYT mapeou alguns lugares dos Estados Unidos onde testes já estão sendo feitos, como a University of Southern California.
A reportagem explica que as máquinas têm a capacidade de ensinar, por exemplo, a pronúncia correta de uma palavra. Além disso, alguns robôs já conseguem apreender com os humanos novas informações e armazená-las – uma espécie de inteligência artificial.
Esse argumento desqualificaria, de acordo com a matéria, aqueles que criticam o uso de máquinas no ensino em função da unilateralidade da relação; agora, a via de aprendizado seria de mão dupla.
Segundo alguns desenvolvedores de robôs ouvidos pelo jornal norte-americano, o dispositivo ainda teria uma capacidade inalcançável para qualquer ser humano: a paciência infinita. Ou seja, a máquina pode repetir, sem se cansar e com "a mesma calma", centenas de vezes o mesmo conteúdo. Nenhuma dúvida ficaria sem resposta.
O NYT conta que algumas escolas na Coreia do Sul já começaram a adotar os robôs, e os resultados têm sido positivos. Sobretudo no ensino de crianças autistas, que necessitam de atenção e paciência especiais. O desenvolvimento de tecnologia no setor aponta para dispositivos ainda mais inteligentes em um futuro próximo.
Em um vídeo disponibilizado no portal do NYT, é possível assistir (em inglês) a uma breve apresentação do cenário mundial de robôs/professores. Nas imagens, Benedict Carey – repórter do jornal – faz questão de enfatizar: "A ideia é que os robôs complementem o trabalho do professor, e não o substituam".

 Por Thiago Camelo, da Ciência Hoje-On Line (em 11/08/2010)

Para assistir o vídeo no portal do New York Times, clique aqui  (o vídeo é falado em inglês e não possui legenda)

*Será que, no futuro, os robôs podem vir a substituir os profissionais de ensino? Dê a sua opinião deixando um comentário ou me mande um e-mail: joseantoniodias@pop.com.br

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Ditadura do Orgasmo Feminino



O médico Gerson Lopes afirma que as mulheres vivem “um regime ditatorial” com relação ao sexo e desempenho na cama


A mulher contemporânea usufrui de sua liberdade sexual, aproveita o direito ao prazer e conhece melhor o próprio corpo. Com a queda de barreiras morais e o advento da pílula anticoncepcional, o sexo erótico ganhou força na vida delas, a ponto de incitar uma busca incessante pelo orgasmo, que agora tem que ser "múltiplo".
O novo momento é marcado por uma grande cobrança pelo gozo e performance na cama, segundo o ginecologista Gerson Lopes, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Com isso, a satisfação sexual estaria mais associada ao resultado do que com a entrega, e assim o "fim da festa" ganha mais atenção que a experiência completa.
Diz Gerson Lopes:  "É como se fosse um regime ditatorial em relação ao orgasmo. O direito ao gozo não pode ser substituído pela obrigação de tê-lo. Presa nessa ditadura, a mulher não se solta no processo do brincar e o foco está no resultado (orgasmo) e não no durante. Presa ao 'fim' ela não curte adequadamente o 'meio', comprometendo o envolvimento afetivo e sexual com o parceiro.
Claro que toda relação tem que ser prazerosa, mas não obrigatoriamente orgástica. Existem outros prazeres como olhar, ouvir, tocar, relaxar... Toda mulher deve sim tentar ter orgasmo, mas a satisfação sexual e a felicidade não têm necessariamente a ver com o orgasmo. A pressão de ter o orgasmo dificulta ainda mais a experiência orgástica".
Gerson Lopes afirma que na sua clínica chegam mulheres que têm orgasmo, mas não sabem. "Isso acontece porque elas possuem expectativas irreais", diz. A literatura diz que aproximadamente 20% das mulheres têm orgasmos e não sabem.
O mundo moderno é um mundo de resultados e a visão do orgasmo pelas mulheres é o reflexo disso.
Erroneamente muitos homens se responsabilizam pelo orgasmo da mulher. A pergunta cretina “você chegou?“ não traduz uma preocupação com ela e sim uma forma de autoavaliação. Ela chegando, significa para ele que desempenhou bem seu papel. Diante disso, o caminho para muitas mulheres é fingir o orgasmo para agradá-lo. Mas ninguém dá orgasmo a ninguém, ele simplesmente acontece. O homem pode apenas facilitar ou dificultar.
Gerson Lopes acrescenta: "Infelizmente as mulheres estão tão competitivas em relação ao sexo como os homens e também acabam mentindo tanto quanto eles. Sexualidade não é qualidade de pessoas e sim de envolvimento entre pessoas.
O caminho para uma vida sexual satisfatória está mais no conhecimento do próprio corpo que na cobrança por mais prazer. Para finalizar, Gerson Lopes afirma: "Sem dúvida conhecer possibilita mais prazer enquanto a cobrança de desempenho mais desprazer. Eu diria que as mulheres ainda não se conhecem bem. Conhecem muito bem seu corpo estético e higiênico, mas pouco o corpo erótico. E investir no seu erotismo é responsabilidade dela e não do parceiro.

Do Portal iG (23/06/2010)
Saiba mais sobre o orgasmo feminino clicando aqui

Comentários:

Anônimo disse..
Muito bom o artigo. Está mais do que na hora de se tocar e deixar de lado qualquer ditadura, seja ela de beleza, orgasmo, mulher maravilha, etc...
Porque não se respeitar e ser mais autêntica, menos preocupada com o que os outros vão pensar; mas no que realmente vale a pena. A vida é curta demais para perdermos com tanta bobagem. Sei que não é facil devido tanta imposição pela Mulher Padrão, mas o esforço pode valer a pena.
Em 12 de agosto de 2010
Faça também o seu comentário ou me mande um e-mail: joseantoniodias@pop.com.br

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fim da Pandemia de Gripe Suína

 Após 14 meses do aparecimento da doença, a OMS anunciou hoje o fim da pandemia de gripe A, mais conhecida como gripe suína

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou hoje o fim da pandemia de gripe A, mais conhecida como gripe suína,14 meses depois de ter declarado o nível máximo de alerta pela aparição do vírus.
"O mundo não está mais na fase seis de alerta pandêmico. Passamos para a fase pós-pandêmica", disse a diretora geral do organismo, Margaret Chan, que tomou a decisão de levantar o alerta aconselhada pelo Comitê de Emergência da OMS, reunido horas antes.
Logo após o aparecimento dos primeiros casos da gripe suína, no México, em abril de 2009, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, divulgou que a doença poderia se transformar em uma pandemia – o que de fato ocorreu. Um ano e meio depois, os cientistas do CDC continuam tentando entender a patologia do vírus da influenza A H1N1, causador da gripe.
De acordo com Sherif Zaki, chefe do Departamento de Patologia e Doenças Infecciosas do CDC, o H1N1 pode estar se transformando e adquirindo uma patologia semelhante à do vírus da influenza sazonal, que causa a gripe comum.
Zaki explica que o H1N1 continua circulando e os surtos podem voltar a ocorrer. Mas com o avanço do conhecimento sobre as possíveis mudanças em suas características, com desenvolvimento de novas vacinas e com a continuidade das campanhas de educação e prevenção, os riscos serão baixos.
Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que, nos casos fatais de influenza, a incidência de coinfecções com bactérias é maior do que se imaginava.
Zaki participou, na semana passada, do 3º Encontro de Patologia Investigativa e da 13ª Jornada Internacional de Patologia, realizados pelo Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.
Em entrevista à Agência Fapesp Zaki disse: "Há muitas diferenças entre os vírus da influenza sazonal, que causam a gripe comum, e o H1N1. Eles atacam diferentes partes do pulmão. O vírus da influenza sazonal envolve mais as vias superiores, traqueia e brônquios. É uma doença das vias respiratórias superiores. O H1N1 ataca mais a parte periférica, ou inferior, dos pulmões, causando mais pneumonia. Essas diferenças têm a ver com as partes dos pulmões a que estão ligados os receptores desses vírus. As doenças que eles causam, portanto, são um tanto diferentes. A questão é que os pacientes que têm certas condições subjacentes – como obesidade extrema, diabetes, câncer ou algum tipo de imunossupressão – são mais suscetíveis a forma severa da doença. E os mais jovens são mais suscetíveis à influenza do H1N1 do que à sazonal. Essa última normalmente atinge com maior incidência gente acima de 60 anos. A gripe do H1N1 envolve mais a faixa dos 20 aos 55 anos por uma questão relacionada à imunidade. As pessoas nessa faixa não foram expostas a vírus similares, enquanto as mais velhas já foram e, por conta disso, desenvolveram algum tipo de imunidade a eles.
Sobre o vírus H1N1,  cientista norte-americano disse que apesarda pandemia ter acabado o vírus H1N1 ainda circula : " O vírus ainda está aí, gerando novos casos da doença. Mas, como ocorre com a gripe sazonal, dependendo da localização de cada país – no hemisfério Norte ou Sul –, há diferenças na estação em que ocorrem os surtos de gripe. O fato é que o vírus não desapareceu, ele ainda está circulando. A pergunta agora é: a cepa que causou o último surto foi ou não substituída por uma nova cepa? É típico do vírus da influenza ter uma cepa circulando quando, subitamente, ela é substituída por uma nova.
Sempre temos várias linhagens em ação – a questão é saber qual delas vai predominar. É por isso que a vacina muda a cada ano. Temos que tentar prever qual será a principal cepa no próximo ano. Precisamos de vários meses para preparar as vacinas e as decisões devem ser feitas cinco ou seis meses antes. Especialistas de todo o mundo se encontram, discutem sobre as linhagens, trocam informações e fazem recomendações para a OMS sobre quais as novas linhagens que devem ser incluídas na vacina do ano seguinte."
Quando perguntado se as vacinas são eficientes, Zaki respondeu: "Elas são eficientes em 60% a 70% dos casos. São altamente recomendadas para os muito jovens ou muito velhos, além de pessoas com doenças como diabetes, câncer ou asma. Grupos suscetíveis a essas e outras doenças devem tomar a vacina. Mas há um aspecto muito importante: não se trata só da vacina da influenza. Um dos problemas da influenza é que muitas vezes há coinfecções bacterianas. E estamos constatando que o vírus H1N1 tem uma incidência maior de coinfecções com bactérias do que pensávamos antes."
Em relação às pesquisas futuras para se compreender o novo vírus, Zaki disse:  "Estamos observando as transformações do H1N1. Cada vez mais estamos vendo casos envolvendo as vias superiores. Então, nossa principal questão é saber se o vírus permanecerá o mesmo, ou se vai se adaptar e ficar mais parecido com a variedade sazonal em relação à patologia.
 
Fazemos estudos a partir de cerca 800 casos fatais que recebemos, sendo que em metade deles foi confirmado que a morte foi causada por influenza. Daqui em diante, o importante é também aprimorar os diagnósticos clínicos. Em muitos casos achamos que o paciente morreu de gripe, mas que ele tinha várias doenças ao mesmo tempo. É preciso aprender sobre essas doenças também. Infelizmente, quando se tem uma pandemia, todo mundo pensa só na influenza e tende a atribuir tudo ao vírus. É preciso definir melhor os diagnósticos e educar a população em relação a quais são as características de influenza, distinguindo-as melhor de outros casos."

Do Portal Ig em 09/08/2010 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Um Passo da Vacina Contra a Esquistossomose

O agente causador da esquistossomose é um verme chamado Schistosoma mansoni (foto), mais conhecido como esquistossomo

O Brasil vai começar a testar este ano a primeira vacina contra a esquistossomose, doença popularmente conhecida como "barriga d'água", que afeta 200 milhões de pessoas em 74 países e chega a matar 200 mil por ano. Apesar de ter sido descoberta há quase 20 anos, somente agora uma empresa brasileira se prepara para a fase de testes em humanos.
A pesquisadora Miriam Tendler, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), descobriu a proteína SM14 entre 1990 e 1991. A Fiocruz, dona da patente, licenciou a empresa privada Alvos para dar continuidade ao estudo. Nesta semana, a empresa foi comprada pela Ourofino Agronegócios, que garantiu que produzirá o imunizante se ele for aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para começar a testar a vacina contra a esquistossomose em humanos ainda este ano, a Ourofino já entregou a substância  à Anvisa, que terá 45 dias para analisar e liberar a mesma para a próxima etapa, o teste em humanos.
A Ourofino manifestou interesse porque a mesma pesquisa foi capaz de encontrar uma vacina contra a fasciolose hepática, doença que contamina 300 milhões de cabeças de gado no mundo. A empresa divulgou que pagou 10 milhões de dólares para ter o direito de testar as duas vacinas e espera estar produzindo os imunizantes até 2015.
Segundo Mirian, os dados sobre a esquistossomose no Brasil não são precisos: "Algumas pesquisas falam em 8% outras  falam em 5% da população brasileira com a doença. O fato é que o problema é endêmico e deixa o doente muito debilitado, com dores e náuseas. As pessoas se curam, mas como o parasita continua no local em que moram, elas costumam ficar doentes rotineiramente.
A esquistossomose é uma parasitose produzida por um verme platelminto de nome Schistosoma mansoni. Apesar do esquistossomo ser um verme achatado, a fêmea desse parasita tem o corpo cilíndrico e é bem maior do que o macho. Este, por sua vez, possui ao longo do corpo uma depressão ( o canal ginecóforo), no qual se instala a fêmea durante o acasalamento. Atente para o detalhe que a esquistossomose é uma verminose extra-intestinal, pois os vermes que medem alguns poucos milímetros ( o macho, de 6 a 10 mm, e a fêmea, uns 15 mm), se instalam no interior das veias do intestino, junto ao reto, ou seja, no plexo mesentérico. Dali, costuma migrar, por via venosa, para o fígado e o pâncreas, provocando cirrose hepática ou fibrose pancreática. O nome "barriga d'água" provém de um dos quadros da doença que é o derrame líquido na cavidade peritoneal conhecido como ascite
O S. mansoni evolui em dois hospedeiros: um hospedeiro intermediário, que é um molusco (caramujo de água doce) do gênero Biomphalaria, e um hospedeiro definitivo, que é o homem.
Veja também no Biorritmo:
Brasil cria a primeira vacina contra a esquistossomose (12/06/2012)

sábado, 7 de agosto de 2010

Espécies Invasoras: Inimigas da Biodiversidade

O mico-de-cheiro (foto) é um exemplo das 11 mil espécies invasoras que ameaçam a biodiversidade mundial

Nenhuma crise ambiental é tão urgente quanto a da biodiversidade. Mudanças climáticas são uma realidade. A escassez de água também. Mas um número catastrófico de espécies já estão em extinção. O ônus é moral, ambiental e econômico. Plantas e animais são essenciais para a preservação da saúde do planeta e o seu fim afeta a nossa própria espécie. Uma ameaça séria  e pouco discutida tem contribuído para a redução da biodiversidade: as espécies invasoras, aquelas levadas pelo homem para lugares onde se tornam um perigo, nem sempre percebido.
Combater as espécies invasoras é uma missão árdua. Levadas para ambientes onde não têm predadores , elas proliferam e se tornam um pesadelo para plantas e animais nativos - inclusive espécies ameaçadas de extinção. Os invasores caçam espécies nativas e competem por alimento e espaço.
É difícil controlar as espécies invasoras. Elas quase sempre são introduzidas  - inadvertidamente ou não - pelo homem. E a maioria das pessoas desconhece que aquelas plantas ou animais tão bonitos  tenham se tornado uma ameaça ambiental.
Certas espécies de primatas se tornaram uma ameaça para a fauna nativa do estado do Rio de Janeiro, mesmo aquelas supostamente protegidas por unidades de conservação. Na Reserva de Poço das Antas, próximo a Silva Jardim, um sagui proveniente o Cerrado compete com o vulnerável mico-leão-dourado, roubando um espaço que seria exclusivo desta espécie. Em Saquarema, o formigueiro-do-litoral, a quarta ave mais ameaçada de extinção da Terra, precisou da intervenção de ecólogos da Uerj para garantir a sua sobrevivência. O mico-estrela e o sagui-de-tufo-branco, dois primatas originários da Mata Atlântica e do Cerrado, são os maiores predadores do pássaro na região. A captura e a  remoção dos saguis estão sendo indispensável para a manutenção desta espécie rara de pássaro, cujo habitat é uma faixa com pouco mais de 70 km, localizada entre Búzios e Saquarema.
As espécies invasoras são uma ameaça silenciosa. Quando se adaptam a um ecossistema diferente do seu, elas se desenvolvem sem encontrar limites  à sua expansão. Ali não há, como em seu habitat, parasitas nem predadores que contenham aquela população, um desafio com que as espécies nativas precisam conviver.
Nas ilhas, onde animais e plantas estão isolados -e, portanto, menos, acostumados à competição -, as espécies nativas são mais vulneráveis. Nesses ambientes, invasores são a principal causa da redução da biodiversidade.
Um dos casos mais devastadores  é o coral-sol, espécie do Pacífico que chegou à Ilha Grande 20 anos atrás e já é encontrada até em Salvador. Sua reprodução, mais aceleradas do que a das espécies nativas, e seus hábitos alimentares deslocam outros animais dos costões. Além de virem incrustadas em navios e plataformas de petróleo, as espécies marinhas podem aportar em áreas desconhecidas misturadas à água  de lastro, usada como contrapeso em embarcações. Embora a legislação obrigue a troca desta água antes da chegada ao litoral, a medida não costuma ser seguida e, tampouco fiscalizada.
Embora sejam animais domésticos, os gatos são considerados perigosos, por terem se disseminado além da conta. Em certas localidades, é possível encontrar até 1.500 gatos por metro quadrado. Mesmo sendo doméstico, os gatos atuam como predadores em florestas, ameaçando espécies vulneráveis de aves, pois atacam por instinto.
Entre as plantas não é diferente. No Rio de Janeiro, a jaqueira é uma espécie invasora nociva para a flora e a fauna nativas. Basta conferir alguns trechos da Floresta da Tijuca e ver que a árvore não divide espaço com qualquer outra espécie. A jaqueira produz substâncias químicas que alteram a composição do solo, tornando inviável a ocupação da área por outras árvores. Quando se instala num local, atrai animais, que, até então, alimentavam-se de insetos. Esse fenômeno provoca um grande descontrole populacional.
O mico-de-cheiro , uma espécie nativa da Amazônia, se estabeleceu na Mata Atlântica, inclusive na Floresta da Tijuca. Apreendido e solto onde não devia, este primata não força o deslocamento de outras espécies, além de comer os ovos de aves ameaçadas. Na Geórgia do Sul, ilha situada a 1.500 km a leste das Ilhas Malvinas, as aves marinhas vêm sofrendo com a invasão de roedores que comem os ovos das espécies que reproduzem na região. Provenientes de navios baleeiros  e caçadores de focas, a população de ratos na ilha está atualmente na casa dos milhões.
Além do desfalque à biodiversidade, as espécies invasoras também causam estragos no bolso das principais economias do mundo. Segundo a ONU, essas espécies já provocam prejuízos de 1,4 trilhões de dólares, o equivalente a 5% do PIB global, em áreas como agricultura, comércio e turismo.

Saiba mais sobre espécies invasoras no Biorritmo:
Não Alimente os Pombos (13/04/2010)
Caramujo Pode Disseminar Doenças (02/04/2010)
De Olho nas Espécies Invasoras (02/07/2009)
Os Cruzeiros Marítimos e seus Impactos Ambientais (27/06/2009)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Hepatite Prejudica os Transplantes de Córnea no Brasil

40 % das córneas doadas para transplantes são descartadas por causa da infecção por hepatite B ou C

Um relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), produzido pela primeira vez, mostra como o vácuo no diagnóstico das hepatites B e C pode impactar na realização de transplantes de córneas.
Segundo a Anvisa, durante o ano de 2009, os bancos de olhos espalhados pelo País captaram 21.012 córneas para serem utilizadas em transplantes, cirurgia que é capaz de fazer com que os pacientes com doenças oculares voltem a enxergar. Do total de tecidos, 10.635 ou 51% foram descartadas.
O principal motivo para a não utilização de quase metade das córneas, diz a Anvisa, foi a Hepatite B e a Hepatite C, problemas de saúde que impedem a utilização do material e responsável por 38,9% dos descartes. A má qualidade do tecido ocular doado também resultou na inutilização do tecido em 30% dos casos.


Queda de doadores


A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostra mesmo que o número de doadores de córneas está em queda no País, na contramão das estatísticas sobre doadores de órgãos. Em 2009, foram 67 doadores de córneas por milhão de habitantes contra 72,4 em 2008. Já de órgãos, o número subiu de 20,2 para 22,2 doadores por milhão no mesmo período.


Fila de espera


Diminuir a incidência de Hepatite B pode repercutir na diminuição da fila de espera para o transplante de córneas. No início deste ano, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo anunciou que passou a exportar córneas para outros Estados do País, justamente para tentar equilibrar o fato da captação paulista exceder a necessidade de cirurgias e de, em outros locais, como Rio de Janeiro, faltar material para o transplante.
Dos 5.686 transplantes de córnea realizados no Estado de São Paulo em 2009, 24,7% eram de pessoas residentes em outros estados. Só o Rio de Janeiro respondeu por 10,5% das cirurgias.


Plano contra hepatite


Na semana passada, o Ministério da Saúde lançou o primeiro plano nacional contra a Hepatite B e Hepatite C. A iniciativa quer lutar contra a falta de diagnóstico na população. Muitos passam anos com o vírus, sem relacionar seus sintomas com a doença e distante do tratamento adequado para ela.
Os dados nacionais mapeados mostram que 96 mil casos novos foram diagnosticados de Hepatite B apenas no ano passado. Além do sexo sem proteção, o compartilhamento de seringas e alicates de unhas também podem servir como mecanismos de contaminação. Pesquisa do Instituto Adolfo Lutz feita com manicures da capital paulista mostrou que 10% delas estavam infectadas.
Uma das estratégias para diminuir a contaminação da população é ampliar a faixa etária que pode receber a vacina gratuita contra a hepatite B nos postos de saúde. Atualmente, fazem parte do calendário gratuito de imunização a população entre 0 e 19 anos. Ano que vem, serão incluídos os entre 20 e 24 anos e em 2012 somadas as pessoas entre 25 e 29 anos.

Do Portal Ig (04/08/2010)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Máquina Para Lavar Pássaros Atingidos Por Derramamento de Óleo

As aves são frequentemente atingidas pelos derramentos de óleo como o do Golfo do México

Não é novidade que muitos animais, especialmente os pássaros, sofrem com os impactos dos derramamentos de petróleo. Uma vez em contato com o óleo, os bichinhos necessitam que este seja removido, e o processo é sempre demorado, e pode acabar gerando ainda mais stress para o animal.
Levando isto em consideração uma companhia petrolífera desenvolveu uma máquina de lavar para estes animais, que realiza o serviço em poucos minutos.
A máquina de lavar realiza o serviço em apenas 7 minutos. Comparados às 2 horas de limpeza que é o tempo que uma pessoa pode atingir na limpeza do animal, aqui temos uma situação onde o pássaro ficará menos tempo sob stress e que aumentará a velocidade da recuperação do mesmo, para ser devolvido a seu habitat natural.
Para ver com a máquina funciona, clique aqui

*Postado no blog Ambiente Brasil em 12/05/2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Amizade É O Melhor Remédio

Ter amigos pode superar muitos fatores de riscos para  a saúde como o tabagismo, o alcoolismo, a obesidade e a inatividade física, diz estudo americano

Especialistas da Universidade Brigham Young, em Utah, e do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos) concluíram que não ter amigos pode ser tão perigoso para a saúde como fumar ou consumir álcool em excesso. De acordo com um estudo publicado no site da revista PLoS Medicine, cientistas americanos asseguram que o isolamento é ruim para a saúde, apesar de essa ser uma tendência cada vez maior no mundo industrializado.
Estudos prévios demonstraram que as pessoas com menos relações sociais morrem antes daquelas que se relacionam mais com amigos, conhecidos e parentes. Por isso, preocupados com o aumento de pessoas mque se relacionam menos com as outras, os cientistas analisaram como um isolamento pode afetar a saúde. Eles recorreram a 148 estudos prévios com dados sobre a mortalidade de indivíduos em função de suas relações sociais. Após analisarem informações de 308.849 indivíduos acompanhados por cerca de 7 anos e meio, os pesquisadores descobriram que as pessoas com mais relações sociais têm 50% mais chances de sobrevivência do que quem se relaciona menos com outros.
Segundo os especialistas, a importância  de se ter uma boa rede de amigos e boas relações familiares "é comparável a deixar de fumar e supera muitos fatores de risco como a obesidade e a inatividade física".
Os resultados também revelam que, analisando a idade, o sexo ou a condição de saúde do indivíduo, a integração social pode ser outro fator levado em conta na hora de avaliar o risco de morte de uma pessoa.
"A medicina contemporânea poderia se beneficiar do reconhecimento de que as relações sociais influem nos resultados de saúde", dizem os responsáveis pelo estudo. Eles acreditam que médicos deveriam advertir a importância das relações sociais  da mesma forma que defendem antitabagismo, dieta saudável e exercícios.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Potencial Biotecnológico das Algas

Bastante usadas nas indústrias de alimentos e cosméticos, as macroalgas marinhas têm também um grande potencial biotecnológico. Novos estudos brasileiros mostram que compostos produzidos por elas têm ação antioxidante, fotoprotetora e até antitumoral. Alga do gênero Gracilaria (foto) é um exemplo


Elas estão em pudins, loções, pastas de dente e até na cerveja. São inúmeras as aplicações industriais de substâncias extraídas das macroalgas marinhas (algas pluricelulares visíveis a olho nu). Mas seu aproveitamento pode ser ainda mais intensivo: pesquisas recentes têm mostrado que compostos produzidos por esses organismos têm um incrível potencial biotecnológico.
Eficácia contra o câncer, trombose, bactérias e vírus patogênicos, a ação do Sol e o envelhecimento são apenas algumas das propriedades de interesse industrial demonstradas recentemente por estudos brasileiros.
Das cerca de 32 mil espécies de macroalgas marinhas pertencentes aos três grupos principais (verdes, vermelhas e pardas), apenas cem são exploradas comercialmente. Ainda assim, a aquicultura de algas é o terceiro maior recurso aquático do mundo.
“No Brasil, essa exploração ainda é incipiente”, comentou a oceanógrafa Yocie Yoneshigue Valentin, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Redealgas, em mesa redonda da reunião anual da SBPC. “Não se conhece muito sobre o potencial biotecnológico das macroalgas.”

Para a pele

Também presente na mesa redonda, a bióloga Nair Sumie Yokoia, pesquisadora do Instituto de Botânica do Estado de São Paulo, apontou o potencial antioxidante e fotoprotetor de duas substâncias encontradas em várias espécies de macroalgas marinhas: os carotenoides – pigmentos orgânicos – e as micosporinas – um tipo de aminoácido.
Segundo Yokoia, os carotenoides de algumas espécies de algas – como a G. birdiae e a H. Spinella – têm ação antioxidante e também fotoprotetora.
Já as micosporinas, presentes principalmente em algas de regiões tropicais, absorvem raios ultravioleta. “Podemos fazer filtros solares e antioxidantes naturais com essas substâncias”, vislumbra Yokoia.
A bióloga também aponta a ação das algas marinhas como fertilizantes agrícolas. As auxinas e as citocininas, substâncias extraídas de algas como a Hypnea musciformis ou a Ecklonia maxima, estimulam o desenvolvimento das raízes das plantas, resultando em um aumento da produção agrícola. “O uso de algumas substâncias extraídas das algas pode evitar a utilização de agrotóxicos ou de fertilizantes químicos”, conta.

Câncer e trombose

Há também aplicações promissoras para a saúde humana. O bioquímico Hugo Alexandre Rocha, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), conduz um estudo inovador sobre a ação dos polissacarídeos sulfatados de algas marinhas na destruição de células cancerosas e também no tratamento de trombose.
Rocha estudou a ação das fucanas – polissacarídeos sulfatados encontrados principalmente em algas pardas – na inibição do crescimento de céulas tumorais de próstata.
“Quanto maior a concentração de fucanas, maior a inibição de céulas tumorais”, explica ele. “Percebemos que essa substância induz a morte celular das células cancerosas.”
Outro foco da pesquisa de Rocha foi analisar o efeito das fucanas de algas marinhas contra a trombose. “Mostramos que um tipo de fucana apresenta ação antitrombótica em até oito horas depois de aplicada”, conta o biólogo.
As pesquisas de Rocha e de Yokoia estão sintonizadas com outros estudos recentes, como o do gel desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e com a Fundação Ataulpho de Paiva.
O produto, composto por uma substância microbicida da alga Dictyota pfaffii, teria potencial de impedir a transmissão do vírus HIV.
Mas falta um elo importante para que o potencial de todas essas substâncias seja aproveitado em grande escala e chegue ao consumidor: o interesse da indústria.
Valentin, Yokoia e Rocha acreditam que os investimentos virão assim que as pesquisas se mostrarem de fato promissoras. “Três empresas já entraram em contato comigo para falar sobre meus resultados”, exemplifica Rocha, sem entrar em mais detalhes.

Por Isabela Fraga  (Ciência Hoje / RJ) em 28/07/2010